Lado Brilhante da Lua,  Especiais,  Halloween na Lua,  Pipoca Lunar

Lado Brilhante da Lua: O Corvo – Uma Trágica História de Amor no Halloween

“Prédios queimam, pessoas morrem. Mas o amor verdadeiro é para sempre”

– O Corvo, 1994

Existe um filme que ocupa um espaço muito especial no meu coração – ele reside em um lugar alto na minha lista de favoritos, com uma colocação que pouquíssimos conseguem alcançar: O Corvo, de 1994.

Não assisto esse filme somente na chegada do Halloween – sei que muitos consideram de terror, fantasia ou até ação, mas eu o considero, no fundo, uma história de amor.

Afinal, foi o romance de Eric Draven que o fez voltar dos mortos para vingar a própria morte e os horrores cometidos contra sua noiva, Shelly Webster, um dia antes do casamento de ambos.

Não consigo colocar em palavras o tanto que esse filme significa para mim e o quanto adoro de paixão. Mas consigo levar vocês em uma viagem para uma cidade assolada de crime, na qual um guitarrista brutalmente assassinado retorna com sua maquiagem branca e preta para finalmente ter justiça.

Eric Draven e o Corvo (fonte do GIF: steam community)

Depois de um filme terrível no nosso especial do Lado Escuro da Lua – que você pode acessar aqui e ver nossa seleção de filmes trash para o Halloween – trago algo digno para o Lado Brilhante da Lua. Então, pode embarcar comigo no meu vagão, mas cuidado ao desembarcar: as ruas não têm piedade e certas coisas devem ser resolvidas com as próprias mãos.

(AVISO: o post contém assuntos sensíveis que podem servir de gatilho, como depressão, estupro e violência gráfica)

Trailer legendado do filme

O Corvo: A Origem em HQ

Capa do Quadrinho de James O’Barr (fonte da imagem: wikipedia)

Em 1989, James O’Barr criou o icônico personagem de O Corvo – em uma série de HQs publicadas pela Caliber Comics – sendo considerada uma história de super herói, mas tendo uma orientação mais voltada para o público adulto.

Vale mencionar: existem vários tipos de quadrinhos considerados “voltados para o público adulto”, por tratar de temas pesados e muitas vezes com imagens perturbadoras – sendo, como exemplo, o famoso Sandman de Neil Gaiman.

O’Barr criou a história como uma maneira de lidar com a morte de sua namorada por conta de um motorista bêbado. Sendo assim, ele nos trouxe Eric e Shelly, o casal principal da história, que sofre um ataque de uma gangue quando seu carro quebra a caminho de casa. Eric leva um tiro na cabeça e acaba paralisado enquanto observa, sem poder fazer nada, a gangue espancando, estuprando e atirando na cabeça de Shelly.

Deixados para morrer na beira da estrada, Eric morre no hospital enquanto Shelly é considerada morta ao chegar. Um ano depois, um corvo traz Eric de volta dos mortos, a fim de se vingar daqueles que cometeram atos tão horríveis contra ele e Shelly. Esse corvo serve também como um “guia espiritual”, orientando Eric em sua vingança e até dando “broncas” quando ele não consegue se desprender das memórias de Shelly e se afunda cada vez mais em solidão e depressão.

Trecho dos quadrinhos desenhados por O’Barr (fonte da imagem: collider)

O Corvo: O Filme de 1994

Poster do filme de 1994 (fonte da imagem: collider)

Antes do filme ser o que é hoje em dia, James O’Barr disse que, ao ser contatado pelos executivos que queriam produzir O Corvo, a ideia original era de ser um musical estrelado por Michael Jackson. O autor dos quadrinhos achou que era uma piada, mas logo percebeu que os executivos falavam sério.

Eu adoro Michael Jackson. Mas ainda bem que esse projeto doido não foi para frente.

Assim, em 1994, Alex Proyas dirigiu a adaptação dos quadrinhos para filme de O Corvo. Como personagem principal, temos Brandon Lee – filho de Bruce Lee. O que provavelmente fez com que o filme ficasse mais conhecido na época foi a morte acidental de Brandon Lee durante as filmagens por conta de uma munição falsa com defeito em uma das cenas que o ator levava um tiro.

Lembro até hoje de perguntar para meus pais, quando era bem pequena, sobre os efeitos especiais de tiros em filmes e eles me contaram a história de Brandon Lee – apesar de nunca terem assistido ao filme. Eu sempre tive certo medo de assistir por causa disso, mas quando vi a primeira vez, acabei me apaixonando imediatamente.

Nos créditos, o filme é dedicado a Brandon Lee e sua noiva, Eliza.

O enredo do filme segue Eric Draven e Shelly Webster – como nos quadrinhos. Em Detroit, no dia 30 de Outubro – data conhecida como Devil’s Night, na qual criminosos cometem vários atos, principalmente incendiar prédios – uma gangue, liderada por T-Bird, invade o apartamento de ambos, atirando em Eric e fazendo-o assistir enquanto estupram e torturam Shelly, finalmente jogando-o da janela do apartamento.

O policial Albrecht é chamado para a cena do crime enquanto Shelly é levada ao hospital, mal sobrevivendo à violência sofrida. Sarah, uma garotinha que era quase como uma irmã mais nova de Shelly, aparece no local e a última coisa que a moça pede a Albrecht é para que ele fale a Eric para cuidar de Sarah. A menina é deixada sozinha com o policial, ambos sabendo que Shelly não irá sobreviver.

Eric após ser trazido de volta pelo corvo (fonte do GIF: torre de vigilância)

Um ano depois, os crimes horríveis cometidos contra Eric e Shelly ficaram impunes. Com essa injustiça, um corvo traz Eric de volta à vida para que a justiça seja feita pelas mãos do músico. Pintando o rosto da maneira icônica vista no filme, Eric começa sua saga para se vingar dos criminosos.

Não acredito que O Corvo seja considerado um filme de terror, mas definitivamente não é um filme leve. Eric é tomado por raiva, angústia, depressão e desejo de vingança desenfreada, sem conseguir se desprender das memórias de Shelly. Esse sofrimento desmedido do personagem principal é o que o faz voltar à vida e buscar vingança – ou, ao meu ver, justiça.

Ao longo do filme, temos cenas com consumo de drogas – cocaína e morfina, principalmente, de maneira gráfica – diversas mortes das mais variadas possíveis, insinuações de sexo e uma cidade assolada pelo crime que faz Gotham City do Batman parecer um parque de diversões.

No meio de tudo isso, porém, ainda há alguns raios de esperança e alegria: Eric se reencontra com Sarah – cuja mãe tem um relacionamento com Funboy, um dos responsáveis pela morte de Shelly, e passa a maior parte do tempo se drogando com ele. Vez que a menina é uma das poucas lembranças boas que permanecem com Eric, ele faz de tudo para protegê-la e ajudá-la a ter uma vida melhor – coisa que ele e Shelly já faziam quando vivos e agora, após a morte, Eric tenta fazer o melhor que pode.

“Mãe é o nome para Deus nos lábios e corações de todas as crianças. Você entende? Morfina é ruim para você. Sua filha está lá fora nas ruas esperando por você.”

– Eric Draven, O Corvo
Eric e a primeira morte de sua vingança (fonte da imagem: vrgames)

Como contraponto, Eric não poupa seus atos nos assassinatos dos membros da gangue de T-Bird. Todas as mortes são extremamente simbólicas e bem doloridas até: injeções de morfina diretamente no coração e explosões de carros com a vítima amarrada ao volante são só uma amostra do que Eric pode fazer para obter sua vingança.

“Ele já estava morto. Ele morreu há um ano atrás, no momento em que a tocou. Todos eles estão mortos. Eles só não sabem disso ainda.”

– Eric Draven, O Corvo

E tudo isso acaba fazendo com que ele se envolva nas maquinações de Top Dollar – um dos chefes do crime da cidade, que usava a gangue de T-Bird como soldados.

O visual completo de Eric ao longo do filme (fonte da imagem: fanpop)

No lado artístico, o filme é realmente incrível: buscando proximidade com os quadrinhos, as cores principais são preto e branco, havendo algumas vezes ênfase em azul e vermelho. A falta de cor e as ambientações certamente góticas e grunge, faz com que lembremos os filmes do Batman quando dirigidos por Tim Burton – mas ganha identidade própria ao se desprender das cores gritantes e se prender mais em uma realidade cruel e violenta.

Um dos pontos interessantes da produção, é que Brandon Lee não gostava muito de como a pintura facial ficava quando o time de maquiagem a aplicava em seu rosto. Sendo assim, ele e o diretor combinaram que Brandon faria a própria maquiagem toda noite antes de dormir a fim de parecer mais natural no dia seguinte.

A trilha sonora do filme também não desaponta: os segmentos orquestrados são devidamente bem utilizados e o filme contou com bandas famosas da época como Nine Inch Nails, Stone Temple Pilots, The Cure – entre diversas outras. Isso contribuí absurdamente para a atmosfera do filme, fazendo os espectadores entenderem não só através de imagens os sentimentos e tons das cenas.

The Cure – Burn. Certamente, a minha música favorita da trilha sonora, que traduz tão bem a atmosfera e os sentimentos da história em geral

Na minha opinião, o horror de O Corvo não está no óbvio. Você pode encontrar o terror da vida real ao longo do filme com os assassinatos tão cruéis de Eric e Shelly na véspera de seu casamento, de maneira tão gratuita; no vazio insuportável de termos as pessoas que amamos repentinamente arrancadas de nós; na revolta de uma injustiça que destruiu diversas vidas passar impune; na maneira como as pessoas muitas vezes tratam a vida como se fosse eterna; em como uma infância pode ser forçada a viver de maneira adulta por conta da negligência de quem deveria cuidar dela; em como a vida é efêmera.

Dizem que essa fala foi improvisada por Brandon Lee durante a cena (fonte da imagem: pinimg)

“É engraçado. Pequenas coisas significavam tanto para Shelly. Eu costumava pensar que elas eram meio que triviais… Acredite, nada é trivial.”

– Eric Draven, O Corvo

A atuação de Brandon Lee brilha como uma estrela na escuridão da madrugada. Na minha opinião, não existirá ninguém que poderá dar vida a Eric Draven da maneira como ele deu. O carisma que ele deu ao personagem, faz com que imediatamente nos conectemos a Eric, torcendo por ele, mesmo com as mortes horríveis que o personagem dá àqueles que cometeram crimes tão horríveis contra ele e a mulher a quem seu coração pertence.

Outro ponto que deve ser comentado – apesar da ótima atuação de todo o elenco do filme – é o trabalho de Rochelle Davis como Sarah. Na indústria do cinema, existe uma “ditado” de que trabalhar com crianças e animais é uma das coisas mais difíceis – exatamente porque nem sempre se tem controle ou a atuação não é das melhores. Nesse caso, Rochelle traz uma atuação sólida e sóbria, que não parece forçada nem caricata. A menina, apesar de jovem, consegue nos convencer que realmente vive por conta própria nas ruas de Detroit.

Eric e Sarah no cemitério, onde Eric previamente foi enterrado (fonte da imagem: rhyljournal)

Ambos são responsáveis por uma das minhas cenas favoritas no filme: quando Sarah é quase atropelada por um carro ao andar de skate na rua e Eric a salva nos últimos instantes, ambos conversam rapidamente – é também o momento em que ela pergunta se ele era um “palhaço ou algo do gênero”, em uma referência à maneira como a menina o chama nos quadrinhos – e, comentando sobre como ela gostaria que parasse de chover, Eric responde com “não pode chover para sempre”, fazendo-a se lembrar dele.

Essa virou uma das frases mais conhecidas do filme – por claramente se referir não só à chuva, mas que momentos ruins da vida não duram para sempre.

No fim, O Corvo é um filme que trata de dor, violência, tristeza profunda e vingança, mas, mesmo assim, com um fundo de amor e esperança que faz com que nossos corações apertem no final – e até lágrimas desavisadas escorrerem enquanto vemos uma bela história de amor ser retratada de maneira tão obscura e melancólica.

Eric e sua amada Shelly

Reboot…?

Faz algum tempo que Hollywood procura fazer uma refilmagem/reboot de O Corvo – principalmente após tantos filmes recentes baseados em quadrinhos.

O problema é que todas as tentativas de produção, até agora, pareceram frustradas. Por vários motivos, atores e diretores desistem do filme, a produção não vai para frente e o filme não passa de um projeto visto só nos papéis.

Como eu disse anteriormente, pessoalmente acredito que ninguém consegue superar o trabalho incrível de Brandon Lee na atuação desse personagem e Alex Proyas na direção.

O Corvo é um filme já suficiente em si mesmo. Não é preciso um reboot nem uma refilmagem, mas sim que as pessoas lembrem esse trabalho maravilhoso que nos foi deixado e aprendam com a mensagem de apreciar mais a vida e aproveitar o tempo que temos com aqueles que amamos.

Insuperável, O Corvo merece seu espaço no Lado Brilhante da Lua.

Um dos poucos momentos em que Eric sorri no filme (fonte do GIF: gifer)

Lado Brilhante da Lua no Lune Station

Como estreia dessa nova coluna, você também pode checar os posts da Hekate e da Selene – vou deixar os links abaixo!

Lado Brilhante da Lua: O Exorcista – Uma História de Possessão e Medo, por Hekate

Lado Brilhate da Lua: A Convenção das Bruxas – Bruxas Passam Seu Tempo Conspirando Contra Criancinhas, por Selene

Conhecida na Lua como Artemis, meu nome aqui na Terra é Kadine. Considero que sou de Serra Negra – sou ariana com ascendente em escorpião. Interessada em tudo que é artístico, tenho um fraco para pesquisar coisas obscuras! Desbravadora de museus, compro mais livros do que consigo ler, interessadíssima em outros idiomas e culturas, colecionadora de chás e canecas, escritora nas horas vagas e gamer noturna para passar raiva com invader em Dark Souls (e relaxar com Devil May Cry ou Resident Evil).