Luneteca

Luneteca: A Cidade do Sol – Um Conto de Duas Mulheres Afegãs

Poucos livros me marcaram tanto quanto A Cidade do Sol de Khaled Hosseini. Lembro de ter acabado de entrar na faculdade – não tinha nem 18 anos ainda – quando um professor passou para meu grupo como leitura obrigatória que teríamos que apresentar para a sala.

Mas, logo, aquela leitura passou de obrigatória para algo que eu queria chegar ao final. Sofri junto com as personagens, acompanhei cada momento de suas vidas complicadas para chegar às últimas páginas segurando minhas lágrimas – algo que pouquíssimos livros conseguem fazer comigo.

Para a Semana de Proteção à Criança aqui no Lune Station, resolvi retirar a poeira do meu livro e acompanhar essa história de novo – um mundo em que duas meninas, tratadas como mulheres, vêem seus destinos cruzados por mudanças absurdas em suas vidas, que não podem controlar.

E, mesmo em meio à desolação e dor, elas ainda conseguem achar esperança.

Podem vir no meu vagão, pois hoje vocês irão com Artemis para as terras do Afeganistão – um lugar tão rico e belo, desolado por guerra durante tantos anos.

Quem é Khaled Hosseini?

Você já deve ter ouvido o nome desse autor por outra obra, que fez enorme sucesso e até virou filme: O Caçador de Pipas. Sim, Hosseini é o autor de ambos os livros – o mencionado e o que estamos tratando nesse post.

Khaled Hosseini, autor de A Cidade do Sol (fonte da imagem: Globo Livros)

Mas quem é ele?

Khaled Hosseini nasceu em Cabul, no Afeganistão em 4 de Março de 1965. Filho de um diplomata e uma professora, sua família foi realocada para Paris em 1976 pelo Ministério do Exterior. Ao se preparar para retornar ao Afeganistão em 1980, porém, o país sofreu um golpe político e a família buscou asilo nos Estados Unidos, em San Jose, California.

Em 1993, formou-se médico pela University of California, começando a escrever seu primeiro romance – O Caçador de Pipas – em 2001, enquanto praticava medicina.

Capa de O Caçador de Pipas (fonte da imagem: Globo Livros)

Entre o lançamento de outros livros, foi nomeado em 2006 Representante Voluntário do Alto Comissariado de Refugiados das Nações Unidas (UNHCR). Em uma das viagens que fez ao Afeganistão pela UNHCR, fundou a Khaled Hosseini Foundation – uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo fornecer ajuda humanitária ao povo afegão.

A situação no Afeganistão afeta mais as mulheres, crianças e refugiados – sendo esse o foco da fundação de Khaled Hosseini. Buscando ajudá-los a reconstruir o próprio país, a fundação procura dar suporte ao garantir os direitos mais básicos.

Caso haja interesse, vou deixar aqui o site! É bem interessante e vale a pena conhecer o trabalho realizado por eles: The Khaled Hosseini Foundation Site.

A Cidade do Sol – Duas Mulheres em Meio à História do Afeganistão

Capa do livro A Cidade do Sol (fonte da imagem: Globo Livros)

O livro é dividido em várias partes, contando as histórias das personagens principais primeiramente separadas e, posteriormente, juntas.

De um lado, temos Mariam, uma harami – ou seja, uma filha bastarda, fora de um casamento, que não foi reconhecida pelo próprio pai. Ela e a mãe vivem como párias em uma kolba – uma espécie de casa extremamente rústica – bem distantes da cidade de Herat, onde vive seu pai.

Desde pequena, a menina sofre abusos da mãe – que, apesar de amá-la, trata a filha de maneira hostil pelos acontecimentos da vida – o que a faz acreditar que o pai é infinitamente bondoso e poderia acolhê-la com seus outros irmãos e esposas.

Sem a oportunidade de estudar, Mariam tem somente o apoio de um mulá que lhe ensina os elementos da religião. Com seus 15 anos, porém, uma tragédia atinge sua vida, fazendo-a morar na mansão do pai com suas outras três esposas.

Viver com uma filha ilegítima, porém, é uma vergonha. E assim, Mariam é dada em casamento a Rashid – um homem com idade por volta de 40, 45 anos, sapateiro de Cabul. Mudando-se para a outra cidade, ela é somente uma menina assustada, precisando aprender a ser uma boa esposa.

“- É, sim. Mas já vi meninas de nove anos dadas em casamento a homens vinte anos mais velhos do que o seu pretendente, Mariam. Todas nós já vimos isso. Quantos anos você tem, quinze? É uma ótima idade para uma garota se casar.

As outras esposas assentiram entusiasticamente. Um detalhe não escapou a Mariam: ninguém mencionou suas meias-irmãs, Saideh e Nahid, ambas da mesma idade que ela, ambas estudando na Escola Mehri, em Herat, ambas planejando entrar para a Universidade de Cabul. Era óbvio que 15 anos não era uma ótima idade para ELAS se casarem.

– Trecho do livro A Cidade do Sol, grifo por Artemis

Entretanto, por outros acontecimentos da vida e completamente fora do controle de Mariam, Rashid se ressente dela – iniciando um ciclo de abuso.

A cidade de Cabul (fonte da imagem: travel.inertianetwork)

Do outro lado, temos Laila, uma menina bonita – vizinha de Mariam em Cabul – e muito inteligente. Filha de um professor, aprendeu desde pequena que podia fazer o que quisesse com o próprio destino – casamento não era obrigatório, mas sim uma boa educação.

A menina também vive diversas situações com suas amigas Giti e Hasina, mas sua maior amizade é com seu vizinho Tariq. Passando horas brincando com ele, Tariq é a pessoa com quem ela realmente pode contar e anseia ver todos os dias.

“(…) “O casamento pode esperar; a educação, não. Você é uma menina inteligentíssima. É mesmo, de verdade. Vai poder ser o que quiser, Laila. Sei disso. E também sei que, quando esta guerra terminar, o Afeganistão vai precisar de você tanto quanto dos seus homens, talvez até mais. Porque uma sociedade não tem qualquer chance de sucesso se as suas mulheres não forem instruídas, Laila. Nenhuma chance.” ”

– Trecho do livro A Cidade do Sol, grifo por Artemis

Em meio aos acontecimentos do livro, o Afeganistão passa por dois pontos cruciais: o golpe comunista – que estabeleceu um regime totalitário, mas, como diz o pai da garota, provavelmente o melhor momento para ser mulher no país – e a ascensão do Talibã em seguida – objetivando derrubar o governo comunista que assolou o país com a guerra, acabando por estabelecer um regime baseado em uma versão totalitária e extremista da Shari’a – as leis islâmicas.

Novamente por acontecimentos fora do controle da menina, ao atingir 14 anos, Laila se vê jogada em uma vida completamente diferente da que havia imaginado e planejado, acabando por casar-se com Rashid para ser sua segunda esposaa única maneira que tinha de sobreviver em um mundo incerto.

“Depois de quatro anos de casamento, porém, Mariam compreendia claramente tudo o que uma mulher tem de suportar quando está assustada.”

– Trecho do livro A Cidade do Sol

E, assim, começam os relatos de uma amizade improvável que surge entre Mariam e Laila: a primeira, já mais velha e com a filosofia de que é preciso suportar as dores que a vida impõe à ela, enquanto a segunda, mais jovem, ainda permanece com o que lhe resta de esperança e revolta contra o sistema estabelecido por uma sociedade em que nascer mulher lhe despe de todos os direitos mais básicos.

“- Na outra noite, quando ele… Nunca ninguém tinha me defendido antes. – disse ela.

(…)

– Não podia permitir – disse Laila. – Na minha casa, ninguém fazia coisas assim.

– Esta é a sua casa, agora. É melhor ir se acostumando.

– Não a isso. Nunca.”

– Trecho do livro A Cidade do Sol

Pontos Principais de Proteção à Criança

fonte da imagem: UN News

No livro, temos dois pontos mais gritantes de violações de direitos: o casamento infantil e a violência doméstica – isso se não levarmos em conta os horrores que ocorrem durante a guerra, como desmembramentos por minas terrestres, pessoas com status de refugiados, falta de comida e fome extrema, falta de educação, entre outros.

Em relação ao casamento infantil, tanto Mariam quanto Laila se casam ainda muito jovens – com 15 e 14 anos de idade, respectivamente. É uma decisão que meninas na oitava série/primeiro colegial não deveriam fazer – nessa época, é preciso somente se preocupar com os estudos e a própria formação, para futuramente pensar em criar a própria família por escolha própria.

“Babi estava se referindo a essas regiões onde os homens que vivem de acordo com as antigas leis tribais se rebelaram contra os comunistas e suas medidas para libertar as mulheres, abolir o casamento imposto, elevar para 16 anos a idade mínima para as meninas se casarem. Segundo babi, esses indivíduos consideraram um insulto às suas tradições centenárias o governo – e, ainda por cima, um governo ateu – determinar que as suas filhas deviam sair de casa, ir à escola, trabalhar lado a lado com os homens.”

– Trecho do livro A Cidade do Sol, grifo por Artemis

No livro, ambas praticamente não têm escolha: Mariam é forçada a se casar, enquanto Laila podia tentar a própria sorte sozinha em meio à guerra, fome e direitos das mulheres cada vez mais escassos. Para ambas, o casamento é uma saída para poder sobreviver.

Já em relação à violência doméstica, esta pode ser observada a partir da terceira parte do livro. No casamento com Rashid, tendo uma família com duas esposas e filhos, ambas as mulheres sofrem com diversos abusos físicos e psicológicos que, por mais de uma vez, coloca suas vidas – e de seus filhos, principalmente a filha mulher – em risco.

Vistas somente como uma propriedade, as mulheres sofrem com a opressão, sem uma maneira de se manifestar – vendo como única saída unir suas forças para enfrentar tanto um governo totalitário quanto um marido abusivo, garantindo as próprias vidas e as dos filhos, ainda crianças.

Casamento Infantil e Violência Doméstica

Meninas indianas com cartazes contra casamento infantil: “Meninas, Não Noivas” (fonte da imagem: scroll.in)

É considerado casamento infantil aquele ocorrido com pessoas menores de 18 anos – sendo uma violação de direitos humanos. É uma prática que ainda ocorre no mundo todo, sendo que pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – que você pode achar no post de toda Irmandade da Lua sobre a ONU nesse link – procura-se acabar com essa prática até 2030.

“Se os esforços não acelerarem, mais de 120 milhões de garotas vão casar antes de seus aniversários de 18 anos até 2030.”

Fonte: UNICEF

Sendo um resultado da desigualdade de gênero, o casamento infantil afeta mais meninas do que meninos. Segundo o site da UNICEF, garotas que casam antes dos 18 anos têm maior probabilidade de sofrer abuso doméstico e de parar os estudos. Outro ponto de preocupação é a gravidez na adolescência, que é um risco tanto para a mãe quanto para o feto.

Outras estatísticas ainda demonstram que essas meninas tendem a se desligar das famílias, dos amigos e da comunidade, havendo impactos tanto na saúde quanto em suas vidas financeiras – o que acaba sendo herdado pelos filhos.

“Quando garotas são permitidas a ser garotas, todos nós estamos melhores” (fonte da imagem: Girls Not Brides)

Globalmente falando, 21% das meninas casam antes dos 18 anos, sendo cerca de 12 milhões casamentos infantis em um ano. Com os esforços para evitar essa prática, porém, já foi possível evitar, na última década, 25 milhões de casamentos.

No Brasil, de acordo com pesquisa da ONU em Outubro de 2019, a taxa de meninas que se casam ou vão viver com parceiros antes dos 18 anos é de 26% – se esse número não for revertido até 2030, será uma das maiores taxas do mundo, atrás somente da África Subsaariana.

Por aqui, tanto a UNICEF quanto a ONU Mulheres e a UNFPA (United Nations Population Fund) trabalham para conseguir reverter esses números. Globalmente, a UNICEF e a UNFPA se uniram para lançar o Global Programme to End Child Marriage (Programa Global para Acabar com o Casamento Infantil). Até 2019, o programa conseguiu impactar mais de 7.9 milhões de garotas – garantindo educação, campanhas e diálogos com a população dos países em que esse problema é mais urgente.

A ONG Girls Not Brides também possuí um trabalho muito legal para conscientização e combate do casamento infantil. Vou deixar o link para conhecerem melhor o trabalho deles: https://www.girlsnotbrides.org/

Em sua aba Take Action, a ONG lista diversas maneiras de ajudar nessa luta: doando para projetos, usando a sua voz – como nós estamos fazendo – para conscientização, compartilhando dados nas redes sociais, dando suporte a campanhas locais e até utilizando o seu próprio casamento como plataforma de ajuda!

Conforme mencionado, é comum que em casamentos infantis ocorra também a violência doméstica. Nesses casos, é possível recorrer ao Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRM) da sua cidade. Ligando para o 180, é possível pegar referências do CRM da sua cidade, bem como de delegacias especializadas.

Em qualquer caso de violência doméstica – seja com você ou com outra pessoa – não se omita: denuncie.

Mais informações de ajuda podem ser encontradas no site do Instituto Maria da Penha: https://www.institutomariadapenha.org.br/

É sempre importante usarmos nossas vozes para ajudarmos a mudar o que encontramos de errado na nossa sociedade. Milhões de crianças – e, principalmente, meninas – sofrem com as consequências do casamento infantil e da violência doméstica. Não se omitir diante dessas situações, importa: a menor ação que você tomar, pode um dia salvar uma vida.

Semana de Proteção à Criança Lune Station

Com essa semana tão especial chegando ao fim, vou deixar o link dos posts da Selene e da Hekate – também tão importantes e recheados de conteúdo interessante – para darem uma olhada!

Pipoca Lunar: O Menino Que Descobriu o Vento – Semana de Proteção à Criança, por Selene

Pipoca Lunar: Preciosa: Uma História de Esperança, Determinação e Força, por Hekate

Conhecida na Lua como Artemis, meu nome aqui na Terra é Kadine. Considero que sou de Serra Negra – sou ariana com ascendente em escorpião. Interessada em tudo que é artístico, tenho um fraco para pesquisar coisas obscuras! Desbravadora de museus, compro mais livros do que consigo ler, interessadíssima em outros idiomas e culturas, colecionadora de chás e canecas, escritora nas horas vagas e gamer noturna para passar raiva com invader em Dark Souls (e relaxar com Devil May Cry ou Resident Evil).