Luneteca

Luneteca: Perdido em Marte – Sobre Plantar Batatas no Planeta Vermelho

Fechando a nossa semana intergalática, trago aqui um dos melhores livros que já li: Perdido em Marte! Prendendo a atenção do começo ao fim, por mais que seja extremamente técnico em alguns pontos, pode ter certeza que você não vai conseguir se desgrudar da curiosidade de “como esse cara conseguiu plantar batatas em Marte?”

Quando estava estagiando e tinha que ler um monte de processos trabalhistas, lembro que tirava alguns momentos de descanso – e, ao invés de tomar café ou ir conversar, ficava lendo Perdido em Marte ou escrevendo meu TCC. Sim, terminei de ler o livro todinho nos intervalos do estágio ou quando estava sem o que fazer.

Para mim, isso só deixou comprovado de que esse livro é bom demais!

Como uma boa fã de ficção científica que cresceu ouvindo o pai contando histórias do Isaac Asimov e explicando como funcionam as estrelas, planetas e viagens interestelares, tinha grandes expectativas para esse livro e não fui desapontada.

Então se prepare, pois nosso ônibus espacial hoje nos levará para o planeta vermelho – onde aprenderemos como sobreviver com uma coletânea de séries e músicas dos anos 70 e uma plantação de batatas improvisada!

Andy Weir – A Mente Que Construiu o Livro

Andy Weir, autor do livro (fonte da imagem: Editora Arqueiro)

Nascido em Junho de 1972, Andrew Taylor Weir – que assina como Andy Weir – é a pessoa por trás dessa história incrível! Além do livro em questão, lançado em 2011, também é responsável pelo livro Artemis (sim, meu nome de autora aqui no site, até sorri que nem uma boa fã abobada), diversos contos publicados de maneira independente ou como coletânea em flash fiction, bem como pelas webcomics Casey and Andy e Cheshire Crossing.

O que é muito interessante é que, para aqueles que entendem inglês, Andy disponibiliza muitos de seus trabalhos de graça em seu site, chamado Galactanet!

Um detalhe: para quem escreve fanfic, pode ter certeza que nosso amigo Andy também escrevia! Não deixe ninguém te desencorajar por ser uma pessoa que escreve fanfics – seu trabalho é válido!

De profissão, Andy é engenheiro de softwares, mas isso não o impediu de escrever durante todo esse tempo! Ao escrever Perdido em Marte, queria fazer uma obra cientificamente válida, então pesquisou conceitos de física, mecânica orbital, condições do planeta Marte, história das missões espaciais e botânica.

(E aposto que mais um monte de coisa – lembro de um capítulo inteiro, do nada, explicando sobre a fabricação de lonas para construir as bases em Marte e eu só “ok, isso é muito interessante, mas por que agora e por que ele tá me falando DO NADA de como são costuradas as lonas…?” até chegar no fim do capítulo e eu ficar “meu Deus, esse homem é um gênio, não vi essa chegando!”)

Perdido Em Marte – Sobre o Livro

Capa do Livro (fonte da imagem: Editora Arqueiro)

“Há seis dias, o astronauta Mark Watney se tornou a décima sétima pessoa a pisar em Marte. E, provavelmente, será a primeira a morrer no planeta vermelho.

Depois de uma forte tempestade de areia, a missão Ares 3 é abortada e a tripulação vai embora, certa de que Mark morreu em um terrível acidente.

Ao despertar, ele se vê completamente sozinho, ferido e sem ter como avisar às pessoas na Terra que está vivo. E, mesmo que conseguisse se comunicar, seus mantimentos terminariam anos antes da chegada de um possível resgate.

Ainda assim, Mark não está disposto a desistir: Munido de nada além de curiosidade e de suas habilidades de engenheiro e botânico – e um senso de humor inabalável -, ele embarca numa luta obstinada pela sobrevivência.

Para isso, será o primeiro homem a plantar batatas em Marte e, usando uma genial mistura de cálculos e fita adesiva, vai elaborar um plano para entrar em contato com a Nasa e, quem sabe, sair vivo de lá.

Com um forte embasamento científico real e moderno, Perdido em Marte é um suspense memorável e divertido, impulsionado por uma trama que não para de surpreender o leitor.”

(Sinopse pela Editora Arqueiro)

E coloca “surpreender” nisso!

Acho que esse antes dos doramas da vida, minha fonte de reviravoltas em enredos que me deixava mais passada do que camisa em dia de entrevista de trabalho foi esse livro. Quando você está esperando que uma coisa vai acontecer BAM! Outra acontece e você fica COMPLETAMENTE sem rumo.

O que, sinceramente, é excelente!

O livro também nos apresenta detalhes complexos: o autor não poupa as teorias e explicações científicas somente porque está nos trazendo uma história de ficção. É tudo muito bem explicado e, para quem sabe a teoria e se interessa por assuntos ligados a viagens espaciais – desde física até botânica – é definitivamente um prato cheio!

Mas calma, não se desanime: se você não gostar ou não entender muito desse tipo de coisa – vai por mim, eu era uma negação em física, química e matemática na escola, só me salvei em elétricao livro não fica chato. Por quê? Na minha opinião, porque o autor explica bem.

Ele não está lá pra ser um palestrinha cansativo que quer dar de inteligente: contando em primeira pessoa, é como se Mark estivesse conversando com a gente – como se fôssemos cúmplices dele e astronautas que entenderiam perfeitamente pelo que ele está passando. Poderia ser muito bem uma conversa entre dois colegas de trabalho da NASA durante o happy hour.

A minha sensação ao terminar de ler o livro é de que Mark é um dos meus melhores amigos – e continua até hoje.

Matt Damon no filme como Mark Watney nos mostrando sua plantação de batatas

A história do livro também nunca se enrola. Ao invés de ficar arrastando partes somente para fazer o que a minha irmã chamava de encher linguiça – ou seja, colocar um monte de coisa só para aumentar o número de páginas e parecer maior e melhor – cada momento acontece uma reviravolta que quem está lendo não espera e a vontade de largar o livro é nunca.

“Ah, olha lá, que legal, ele tá conseguindo plantar as batatas, tudo vai bem O QUE, MAIS UMA TEMPESTADE DE AREIA DEVASTADORA SE APROXIMA, COMO ASSIM, BRASIL? EU NEM APROVEITEI DIREITO AS BATATAS!”

Esse é o sentimento durante toda a leitura do livro. Quando você está lá confortável e contente com o rumo das coisas, pode se segurar firme pois algo irá acontecer para te tirar do eixo.

E é isso que faz a história acontecer!

Somos levados na mesma sensação de Mark de sobreviver um dia de cada vez e não garantir que aquela situação vai durar para sempre – mas também somos levados na personalidade incrível do personagem de se manter firme e sem entrar em pânico numa espiral de depressão, aceitando que ele não tem o controle da situação, mas sim do resultado.

Além da luta dele na plantação de batatas – o primeiro homem a colonizar Marte – e se comunicar com a NASA, temos os dilemas do pessoal na Terra de como resgatar Mark Watney. E em todo esse processo, também acompanhamos os companheiros da missão Ares 3, que estavam retornando para casa e não sabiam que haviam abandonado Mark vivo no planeta vermelho.

As opções são muitas, mas mantimentos e gasolina definitivamente não são abundantes. Com diversos cálculos, conseguimos entender perfeitamente os dilemas de recursos e os riscos de qualquer missão de resgate. A parte científica é fácil de entender e contribuí para ficarmos com o coração na mão vendo como o pessoal da NASA vai resolver tudo e se o pessoal da Ares 3 poderá fazer algo.

Aliás, uma curiosidade: Marte é o nome do deus da guerra na mitologia romana – que foi inspirado pelo deus da guerra grego, Ares.

Mas a cereja do banana split aqui é o senso de humor do autor – e essa foi a maior diferença que vi entre o livro e o filme.

Adaptado em 2015 para as telas do cinema, Ridley Scott nos trouxe um filme incrível, contando com Matt Damon – que não dá pra imaginar outra pessoa como o Mark agora – e Jessica Chastain no elenco, além de muitos outros nomes conhecidos. É, de fato, um filme muito bom: assisti com meu pai e adoramos.

Mas assisti depois de ler o livro e, nossa, como senti falta do humor do Mark!

O que eu esperei por essa cena é brincadeira (fonte da imagem: not so popular)

Não que o filme não tenha – como dá pra ver no GIF acima, tem sim! – mas no livro é muito mais.

O que deixa o livro super interessante e nos faz devorar cada página, é o fato de que Mark é extremamente carismático e, por pior que seja a situação, ele nunca perde a esperança e a vontade de seguir em frente.

“Opa, deu ruim e me deixaram em Marte porque acharam que eu morri? Ok, triste, mas vamos plantar batatas. Literalmente. Com dejetos dos meus companheiros de viagem. E olha! Deixaram um monte de série antiga e uma coletânea de músicas Disco dos anos 70 – vou passar meus momentos ouvindo Donna Summer e Bee Gees enquanto cuido das minhas plantas!”

É basicamente assim que vive Mark! E quando ele finalmente consegue fazer com que a NASA perceba que ele está lá – através de um plano mirabolante envolvendo sondas e satélites que demora dias para completar – o desespero e desesperança de todo mundo na Terra é diretamente contrastante com a esperança e calma que Mark mantém até na situação bizarra em que se encontrava.

Uma das cenas que mais me lembro é de quando um dos executivos da NASA fica dramaticamente olhando para Marte à noite da janela do seu escritório e fala algo do tipo “eu só consigo imaginar as coisas desesperadoras passando na cabeça desse homem ao saber que está abandonado em Marte com a perspectiva de morrer em pouco tempo por falta de suprimentos…” e eis que o autor foca em Mark, assistindo alguma de suas séries e pensando “mas se o Aquaman consegue falar com peixes, como é que ele fala com baleias que são mamíferos…?”

Uma pergunta muito válida, Mark. Você me ganhou aí.

Matt Damon dançando Hot Stuff no meio de Marte com um isótopo radioativo que não pode ser quebrado enquanto dirige nas montanhas rochosas do planeta? Eu amo esse homem, eu amo esse filme, eu amo esse livro (infelizmente, não encontrei a cena em português)

O filme tem sim o humor do livro, mas posso garantir que nas páginas nos divertimos muito mais que assistindo ao filme – e entendo o motivo. O próprio Mark, no livro, menciona que se fossem fazer um filme do que aconteceu com ele, deixariam algo mais dramático, com um resgate heróico no final, a equipe inteira vindo abraçá-lo como se ele não estivesse subnutrido, sem tomar banho há muito tempo e com risco de contaminação de alguma doença desconhecida.

E, sinceramente? Eu dei risada quando foi exatamente isso que aconteceu na adaptação. Porque literatura e cinema são dois meios diferentes de entretenimento: o que funciona para um, não funciona para outro. Por isso, temos adaptações de livros! Algumas situações devem ser mudadas para melhorar como a história será apresentada aos expectadores por meio de imagens, sons e atuação.

A não ser que você seja o Peter Jackson adaptando O Senhor dos Anéis, mas aí é outra história para outro dia.

O filme é uma ótima adaptação, mas confia nas palavras da Artemis: se você gosta de ficção científica e viagens espaciais, não deixe de ler Perdido em Marte!

É uma junção perfeita de ciência, missões espaciais, memes e músicas dos anos 70, que nos dá uma boa noção de como a NASA lida com questões inesperadas – além de nos mostrar que para tudo nessa vida há uma solução: assim como Mark Watney plantou suas batatas e colonizou Marte para sobreviver até conseguir se comunicar com a Terra e arranjar uma maneira de voltar para junto de sua tripulação antes que seu oxigênio e comida acabassem, também conseguimos resolver os problemas que nos aparecerem.

Só nos basta um bom planejamento e uma dose de humor!

Bônus: Filme e Livro

Quer assistir ao filme? É possível encontrar em plataformas como Google Play, ITunes, XBox, PlayStation e Youtube.

Já o livro, pelo menos por aqui, percebi que anda esgotado. Mas nada que a Amazon ou a Estante Virtual não consigam resolver! Recomendo fortemente para todos os fãs de ficção científica!

Mark Watney aprova essa recomendação e esse post!

Bônus 2: Semana do Astronauta no Lune Station!

Essa semana inteira foi dedicada à temática de astronautas e viagens espaciais! Vou deixar aqui os posts da Hekate e da Selene – que estão muito bons – com recomendações ótimas para quem curte o tema!

Pipoca Lunar: Interestelar e o Buraco de Minhoca, por Hekate

Pipoca Lunar: Over The Moon – A Lenda da Deusa da Lua e Seu Amor, por Selene

Conhecida na Lua como Artemis, meu nome aqui na Terra é Kadine. Considero que sou de Serra Negra – sou ariana com ascendente em escorpião. Interessada em tudo que é artístico, tenho um fraco para pesquisar coisas obscuras! Desbravadora de museus, compro mais livros do que consigo ler, interessadíssima em outros idiomas e culturas, colecionadora de chás e canecas, escritora nas horas vagas e gamer noturna para passar raiva com invader em Dark Souls (e relaxar com Devil May Cry ou Resident Evil).