Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: A Voz do Silêncio – Koe No Katachi e a Aceitação de Pessoas Diferentes

A Voz do Silêncio (Koe No Katachi – 聲の形 – em Japonês, traduzido como “A Forma da Voz”) é uma história que, de início, eu não esperava muita coisa e, ao fim, acabou por me deixar completamente sem rumo e com lágrimas nos olhos por tratar de assuntos tão complicados de uma maneira tão sensível.

No dia 03 de Dezembro, temos o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência – instituído pela ONU em 1992, com o objetivo de conscientizar e aumentar a aceitação das pessoas com deficiência na sociedade. Mesmo assim, vemos que ainda é um assunto tabu e a aceitação, em pleno 2020, ainda não é conforme o esperado.

A representação de pessoas com deficiência na mídia em geral é certamente complicada. Se não é vista como estigma, acaba por ser completamente caricata e difícil de acreditar. Por isso, escolhi o filme A Voz do Silêncio – uma produção de animação japonesa – para abordarmos esse tema no dia de hoje!

Incrivelmente sensível mesmo ao tratar assuntos extremamente pesados, é um filme que entrou para minha lista de melhores produções que já vi – e espero que entre para a sua também.

Então aperte os cintos, hoje o trem lunar tem destino para o Japão, onde conheceremos uma garota chamada Nishimiya que, por conta de deficiência auditiva, sofre bullying de seus colegas de classe.

(Aviso: o filme trata de assuntos como bullying, violência e suicídio, temas que podem servir de gatilho para algumas pessoas. Achei melhor deixar avisado, mas também aviso que vale a pena tentar assistir!)

Koe No Katachi – A Voz do Silêncio, de Mangá Para Filme

A capa do mangá Koe no Katachi (fonte da imagem: wikipedia)

O filme é baseado no mangá de mesmo nome, escrito e ilustrado por Yoshitoki Ouima. Foi publicado em 2011 em formato one-shot – ou seja, uma história curta com somente um capítulo ao invés de vários, como estamos acostumados com mangás. Após começar a ser serializado, foi concluído em 2014 e publicado em volumes pela editora Kodansha no Japão.

Resumidamente, a história é sobre Shouko Nishimiya (西宮 硝子), uma estudante que tem surdez e, por conta disso, sofre bullying constante de diversos colegas – mas principalmente de Shouya Ishida (石田 将也). Por conta disso, sua mãe a transfere novamente de escola, e Ishida começa a sofrer bullying e ostracismo como punição. Isso, eventualmente, faz com que ele busque Nishimiya para se desculpar do que fez com ela quando eram mais jovens.

Por conta do sucesso da história, como acontece com vários mangás, foi anunciado que seria adaptada para um anime. Entretanto, essa adaptação virou filme ao invés de série – e é exatamente sobre ele que vamos falar!

Koe No Katachi – O Filme!

Poster do filme (fonte da imagem: wikipedia)

Lançado em 2016, com produção da Kyoto Animation, direção de Naoko Yamada e roteiro por Reiko Yoshida (viva a representação feminina no cinema!), A Voz do Silêncio se tornou um filme para as telonas ao redor do mundo.

A história base do mangá continua a mesma: nela, podemos ver Nishimiya chegando à escola nova após ser transferida e já começando a sofrer bullying de seus colegas – principalmente de Ishida.

Pessoalmente, foi dolorido ver Nishimiya sofrendo bullying – já que eu mesma fui alvo dessa tratativa na escola durante anos e anos, de maneiras por vezes violentas e psicologicamente traumatizantes e desgastantes – principalmente porque a garota é sempre doce e simpática: apesar da deficiência, Nishimiya quer se conectar com os outros, mas não sabe como, permanecendo sempre em silêncio até falarem com ela. E, apesar do bullying, ela sempre tenta ser simpática e receptiva aos outros.

Cena em que Nishimiya sofre bullying na escola por conta de seus aparelhos auditivos (fonte da imagem: ytimg)

Constantemente ridicularizada e com seus aparelhos auditivos frequentemente arrancados pelos colegas – machucando-a e danificando-os – a mãe de Nishimiya decide que o melhor é transferi-la novamente de escola, por conta da intolerância dos colegas em relação à deficiência da menina.

Ishida, o principal responsável pelo bullying sofrido por Nishimiya, sente a situação voltar contra si mesmo: como punição por tudo que fez com a garota, começa a sofrer bullying dos próprios amigos e a ser periodicamente excluído, até não ter mais espaço na sociedade – assim como fez com Nishimiya.

Com o passar dos anos, Ishida se isola cada vez mais, decidindo, ao chegar ao colegial, cometer suicídio por achar que sua vida é completamente descartável. Não acha que vale a pena falar com pessoas, mal olhando-as nos olhos durante o dia.

Ishida em seu processo de isolamento (fonte do GIF: blogspot)

Isso muda quando Ishida decide se tornar amigo de Nishimiya, como uma maneira de se redimir pela dor que causou à garota quando eram mais novos. Aos poucos, ambos se unem nessa amizade improvável e acabam se juntando a um grupo de amigos também improváveis, vendo lentamente que a vida vale a pena ser vivida.

Claro, o filme não vem com a ideia de que magicamente tudo fica melhor com as amizades. A trama é muito mais intrincada que isso, os personagens muito mais complexos e cada um deles possui uma motivação pessoal para seus atos.

As atitudes das pessoas em relação à Nishimiya fazem com que a garota pense cada vez mais que todos estariam melhores sem ela. Em uma decisão voltada para o bem estar dos outros e a crença de que ela era somente um peso – uma imagem tão triste e pesada de si mesma feita por uma garota tão gentil e sensível – Nishimiya tenta se matar, porém é salva no último instante por Ishida.

Nishimiya, Ishida e o grupo improvável de amigos (fonte da imagem: Netflix)

O filme nos mostra que tudo é muito mais complicado do que parece na superfície. As pessoas não são simples de entender e não são facilmente classificadas em boas ou ruins. Todos os personagens envolvidos têm suas dificuldades, seus fantasmas pessoais, maus comportamentos e redenções – seres humanos não são preto no branco como muitas vezes queremos acreditar ao rotular os outros.

Claro, com o meu histórico pessoal, não é fácil falar uma coisa dessas – mas até as pessoas que cometem bullying possuem motivos por trás. Às vezes podem ser motivos puramente mesquinhos e maldosos, sim, porém também podem ser motivos pautados em inseguranças e medos. Dependendo de como essas pessoas enxergam os próprios atos, fica o questionamento de se merecem redenção no futuro.

Mas o ponto que para mim é o mais importante, é a aceitação.

Nishimiya sofre de intolerância desmedida, fazendo-a ter uma infância e adolescência extremamente complicadas e marcadas por experiências tristes, somente por conta de uma deficiência que não foi uma escolha da garota. Ao invés de acolher, os colegas optaram por excluir – e isso trouxe consequências terríveis para todos os envolvidos, desde o garoto que a maltratou, até a família da garota.

E isso tudo por falta de empatia, consciência e aceitação.

Com um pouco mais de tudo isso, é possível mudar a vida dos outros. O filme deixa bem claro: tanto Nishimiya quanto Ishida precisavam de empatia e aceitação, precisavam se comunicar com os outros colegas e efetivamente fazer parte da sociedade. Sendo aceitos como são, respeitando as diferentes limitações de cada um, conseguem ter esperança de dias melhores e começar a formar memórias melhores – que certamente ficarão marcadas pelo resto da vida.

Ishida e Nishimiya (fonte da imagem: deliriumnerd)

Bullying e Aceitação de Pessoas Diferentes

Palavras chave do Dia Internacional de Pessoas com Deficiência, pela ONU: tome ações; inclusão de deficientes; mulheres com deficiências; entendendo deficiências; mobilize ação; promova dignidade; planeje eventos; torne deficiências algo convencional; organize fórums; garanta igualdade; desenvolva políticas sociais; emprego; educação inclusiva; integração social; advogue por direitos humanos; crianças com deficiência; empoderamento; saúde acessível; coleta de dados; aumentar conscientização; acabar com estigma e estereótipos (fonte da imagem: UN)

Conforme pesquisa da ONU, um em cada três alunos no mundo foi vítima de bullying. Releia a frase e deixe sua mente efetivamente compreender esse número. A quantidade de pessoas que sofreram bullying, com consequências horríveis, é grande demais.

O bullying pode se manifestar tanto como abuso físico quanto psicológico e, por mais que todas as crianças possam sofrer bullying, as que são consideradas diferentes geralmente são as que mais estão em risco. Com a pandemia e a migração das escolas para meios digitais, houve aumento do cyberbullying – ou seja, a prática de bullying de maneira online.

Quais são as consequências disso?

Quem sofre bullying possuí maior possibilidade de abandonar os estudos, assim como baixo desempenho acadêmico – assim como Nishimiya foi transferida de escola em Koe No Katachi por conta do bullying sofrido, meus pais chegaram a considerar seriamente me trocar de colégio por conta da minha vontade de não sair mais de casa e desempenho acadêmico cada vez pior.

Tais problemas podem fazer com que jovens se sintam cada vez mais solitários e descontem os sentimentos em drogas e álcool – além de haver uma conexão direta entre bullying e taxas crescentes de suicídios entre jovens, algo que o filme trata muito bem e de uma maneira muito delicada.

Por conta da falta de conscientização e aceitação em relação a comportamentos e condições diferentes – desde a maneira de se vestir a deficiências mentais ou físicas, como é o caso do filme – o bullying com essas pessoas é tido como comum e tratado como “somente uma fase”.

O bullying não é uma fase. Uma pessoa se comportar da maneira que nasceu, não é uma fase. É preciso empatia para aceitar todas as formas, cores e músicas diferentes com as quais cada ser humano vem para a terra.

Por isso dias como hoje são tão importantes. Precisamos nos educar em relação ao outro e educar nossos filhos sobre como respeitar o próximo. Deficiências – sejam físicas, mentais e etc. – não podem ser tratadas como tabus. Precisamos conhecer, discutir, acolher e aceitar as pessoas como elas são – fazendo não só as nossas, como as vidas delas cada vez melhor.

Conforme Koe No Katachi deixa claro: precisamos aprender a ouvir todas as melodias que cada um consegue disponibilizar e, se não conseguimos ouvir, podemos aprender a sentir.

Nishimiya e Ishida em um momento de aceitação no filme (fonte da imagem: narvi)

Assista ao Filme!

Ficou interessado e quer conhecer mais dessa história? Pois prepare o lencinho para secar as lágrimas e se deixe levar nessa viagem que nos faz ter mais empatia com o próximo!

Atualmente (Dezembro/2020) o filme está disponível na Netflix, no link abaixo:

https://www.netflix.com/title/80223226

Trailer legendado

Conhecida na Lua como Artemis, meu nome aqui na Terra é Kadine. Considero que sou de Serra Negra – sou ariana com ascendente em escorpião. Interessada em tudo que é artístico, tenho um fraco para pesquisar coisas obscuras! Desbravadora de museus, compro mais livros do que consigo ler, interessadíssima em outros idiomas e culturas, colecionadora de chás e canecas, escritora nas horas vagas e gamer noturna para passar raiva com invader em Dark Souls (e relaxar com Devil May Cry ou Resident Evil).