Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: Elysium – Futurista, Porém Atual

Acho que cada dia que passa, ficamos cada vez mais próximos de filmes de ficção científica com futuros distópicos do que um incrível mundo com roupas coloridas como dos Jetsons. Entre muitos filmes com essa temática, Elysium é futurístico, mas não podia ser mais atual.

Quantas vezes nos cansamos de ver notícias sobre crescentes desigualdades sociais, escassez de recursos, destruição constante da natureza, negligência dos poderes públicos, segregação e corrupção?

Já sabemos que esses assuntos são mais que constantes na mídia – e isso mudou a nossa visão de futuro.

Enquanto, nos anos 60, previa-se um futuro incrível e belo, com carros voadores, casas prósperas, robôs cuidando de casas e uma vida automatizada que trazia felicidade, atualmente prevemos o futuro como algo distópico e apocalíptico, com corrupção, segregações, destruição da natureza e até aceitamos a ideia do êxodo terrestre como algo inevitável.

Hoje em dia, aceitamos mais uma ideia de futuro como o de Blade Runner (fonte da imagem: pinterest)

Apesar de se passar no futuro, o filme Elysium critica a sociedade atual como um todo, mostrando a importância de pensarmos no próximo e não aceitarmos todas as ordens de um poder público se soubermos que estas estão erradas.

Hoje, o nosso trem lunar nos levará à uma estação espacial na qual todos que lá vivem possuem conforto e prosperidade – enquanto o restante da humanidade mora em uma Terra moribunda. Aperte os cintos e prepare-se para nossa próxima parada: Elysium.

Neill Blomkamp e Seus Trabalhos de Ficção Científica

Eu, Artemis, tenho costume de assistir a filmes de ficção científica com meu pai. É de longe o gênero favorito dele e, por isso, acabou se tornando um dos meus. Então, nós dois sempre nos empolgamos quando achamos filmes ou diretores novos no meio que valem a pena ser assistidos.

Neill Blomkamp ao lado de Chappie (fonte da imagem: diário da região)

Esse foi o caso de Neill Blomkamp! Atualmente um dos meus diretores favoritos – pois, até o momento (2020), não me desapontei com nenhum trabalho dele – Blomkamp é diretor, produtor, roteirista e animador, vindo da África do Sul.

O primeiro filme dele que assisti – e sua primeira produção cinematográfica – foi Distrito 9, de 2009. Meu pai assistiu e me deu logo em seguida, falando “assiste que você vai gostar”. Depois dessa, sempre que eu e ele vemos algo do diretor, já assistimos, pois assumimos que vai ser bom.

Apesar de ser do gênero de ficção científica, o trabalho de Blomkamp é repleto de críticas sociais. Em Distrito 9, por exemplo, o diretor trata de segregação social – mas, ao invés de usar as raças como diferença, usa a segregação entre humanos e alienígenas cuja nave quebrou acima da África do Sul e não conseguem retornar para casa, vivendo em uma favela à margem da população que os trata como animais.

(além de uma crítica ao governo corrupto e sem escrúpulos que pensa mais em armamentos do que em vidas)

Trailer do filme Distrito 9

O próximo filme do diretor foi Elysium, de 2013, que me animou principalmente com as presenças de Wagner Moura e Alice Braga no elenco (um viva para a representação brasileira em Hollywood!!) – que fizeram um trabalho incrível ao lado de Matt Damon e Jodie Foster.

Logotipo do Oats Studios (fonte da imagem: wikipedia)

E logo em seguida, em 2015, tivemos Chappie – também um filme excelente, que discute, principalmente, a questão da consciência em inteligências artificiais, fazendo-nos questionar até que ponto é ético desligar um robô consciente e se isso pode ser considerado um assassinato – afinal, para haver vida, é preciso consciência.

Em 2017, o diretor formou o Oats Studios, um estúdio independente voltado para a produção de curta metragens, para distribuí-los principalmente no Youtube – contando sempre com bons atores e ótimas produções.

Fica aqui o link do Youtube para seguirem lá na plataforma: Oats Studios.

Elysium: Críticas ao Governo, Sociedade e Funcionamento do Sistema

Poster do filme (fonte da imagem: wikipedia)

Elysium veio em 2013, trazendo um elenco excelente: Matt Damon, Jodie Foster, Wagner Moura, Alice Braga, Diego Luna e Sharlto Copley – sendo este último sempre presente nos trabalhos do diretor e um ator que, na minha opinião, merecia muitos prêmios pela variedade de personagens que consegue interpretar com tanta veracidade.

O enredo se passa no ano de 2154, no qual a parte privilegiada da população vive na estação espacial Elysium – um habitat artificial perfeito, onde qualquer doença ou ferimento é prontamente tratado, garantindo uma longa e confortável vida para seus residentes – enquanto a maior parte da população vive em uma Terra poluída, destruída, superpopulada e controlada com mão de ferro pela polícia.

Max (Matt Damon) é um homem normal que vive em Los Angeles e trabalha para a empresa Armadyne, na linha de produção de robôs. Preso anteriormente por roubos de carros, encontra-se em condicional – e é aí que vemos os primeiros indícios de uma polícia intolerante e um sistema que trata a todos como números, principalmente quando Max tem que visitar seu agente de condicional que é um robô intolerante que o trata de acordo com as estatísticas programadas em seu protocolo.

Frey (Alice Braga) é amiga de infância de Max, trabalhando como enfermeira em um hospital constantemente lotado e sem o mínimo suficiente para atender aos pacientes. Com uma filha doente, Frey faz o melhor para cuidar da menina e de quem precisa da sua ajuda.

Max, Frey e Matilda, a filha da mulher (fonte da imagem: acid cinema)

Durante um dia de trabalho comum na linha de produção, Max se encontra com um problema em uma das portas das câmaras de radiação, sendo que a mesma está travada por dentro da câmara. Ameaçado por seu chefe a perder o emprego se não entrar na câmara para destravar a porta e precisando do mesmo, Max entra e acaba levando uma carga de radiação letal.

Spider e Max (fonte da imagem: época globo)

Novamente tratado somente como um número, seus empregadores mal se importam com o acidente sofrido e o fato de que Max irá morrer em 5 dias. Com essa nova perspectiva, ele vai atrás de Spider (Wagner Moura), um hacker responsável por levar pessoas de maneira ilegal à Elysium, contanto que elas paguem por suas passagens.

Enquanto isso, em Elysium, Delacourt (Jodie Foster) é a Secretária de Defesa responsável por manter o “modo de vida daquele habitat intacto”. Sem hesitar na hora de matar inocentes da Terra que somente querem se curar de suas doenças e ter uma vida melhor, Delacourt é responsável por utilizar um agente mercenário, Kruger (Sharlto Copley), para destruir as naves antes que elas alcancem a estação espacial.

Jodie Foster como a Secretária de Defesa Delacourt (fonte da imagem: uol)

Para ser levado à Elysium, Max aceita um trabalho de Spider: roubar dados armazenados no cérebro de um dos habitantes de Elysium – sendo a vítima escolhida, o CEO da Armadyne que tratou Max como um ninguém quando sofreu o acidente de trabalho. O que não sabiam, era que Delacourt planejara um Golpe de Estado com a ajuda do CEO, que construiu o núcleo de Elysium e sabia a programação necessária para alterá-lo, a fim de que ela se tornasse a Presidente e pudesse governar da maneira que queria para preservar o habitat.

O filme deixa evidente a segregação social entre pessoas privilegiadas e outras que não tiveram tantas oportunidades, além de escancarar como, muitas vezes, os privilegiados possuem uma maneira de ajudar os que precisam, porém optam por manter o próprio modelo de vida intacto – vendo os menos privilegiados como invasores que surgiram para acabar com a paz próspera e idílica na qual nasceram.

A nítida diferença entre Elysium e o planeta Terra (fonte da imagem: livejournal)

Não cruza os pensamentos dessas pessoas que, talvez dividindo os recursos mais que suficientes para todos os envolvidos, todos poderão ter uma vida melhor e mais justa.

Outro ponto que o filme traz é a maneira como muitos se contentam como o sistema funciona, somente porque “sempre foi assim” e “porque é assim que as coisas são”. Esse tipo de pensamento, inclusive, faz com que o personagem de Max – na minha opinião – se encaixe mais como um anti-herói do que um herói em si.

Isso porque o personagem apresenta, por diversas vezes, traços de egoísmo – estando com alguns dias de vida sobrando, preocupa-se somente com a própria sobrevivência do que com os problemas dos outros, exatamente como aqueles que vivem em Elysium, sempre com boas condições e completamente cegos aos problemas alheios.

Trailer de Elysium

Porém, isso muda ao longo do filme. Conforme acompanhamos toda a luta de Max para ir à Elysium salvar a própria vida, também vemos como o personagem começa a entender que todos merecem aquilo pelo qual ele luta com tanta garra. E, assim, Max passa de um anti-herói egoísta para alguém que faz um sacrifício para que outros possam ter melhores oportunidades.

Enfim, Max decide enfrentar o sistema e não aceitar as coisas como elas são somente porque outros mais poderosos colocaram aquelas regras. Se as regras são prejudiciais e excluem os menos favorecidos, elas precisam ser mudadas.

E é exatamente o que o filme mostra: com todo o poder de fazer o que quiser com os códigos salvos no próprio cérebro – inclusive tornar-se o Presidente do local mais poderoso da humanidade – Max opta por ajudar todas as pessoas que precisavam, mudando um sistema que funcionava somente para aqueles que nasceram com o privilégio (de uma maneira para deixar qualquer um emocionado, independente como irá expressar essa emoção).

Um colar com a foto da Terra, que Max carrega durante o filme

A política luta, portanto, para manter aquele sistema, ou seja, mantendo o conforto dos que já nasceram naquela condição e controlando os que nasceram em outras condições para que não almejem posições/vidas melhores.

Com um governo negligente e corrupto, preocupado em proteger somente os interesses daqueles que se julgam mais importantes principalmente por seu poder aquisitivo, a parcela da população que não teve tanta sorte se encontra marginalizada e sem perspectivas de uma condição melhor – por mais que represente a maior parte da humanidade.

Kruger, o mercenário com diversas acusações de violação de Direitos Humanos, trabalhando clandestinamente para o governo de Elysium (fonte da imagem: livejournal)

E no meio disso tudo, vemos também a importância de uma saúde pública sem interferência de interesses políticos e financeiros – ou seja, uma saúde com o objetivo de atingir toda a população, não importando quem seja ou o quanto essa pessoa possuí.

No filme, boas condições de saúde somente são atingidas por aqueles que possuem a capacidade financeira para tanto – por mais que uma boa saúde seja uma garantia de Direitos Humanos.

Quantas vezes vemos pessoas sem tratamentos e remédios ou impossibilitadas de realizar exames e procedimentos cirúrgicos pois não possuem uma maneira de pagar pelos mesmos? Diversos casos que poderiam ser resolvidos de maneira fácil acabam sendo letais por conta do valor hediondo de um tratamento em uma rede privada.

O próprio nome de Elysium vem do grego Campos Elísios, sendo o paraíso na mitologia grega mantido pelos deuses, sem fome, doenças ou guerra, somente para aqueles permitidos e com virtudes suficientes para fazer parte dele.

O filme deixa o questionamento: o que seria essa virtude, afinal?

Aqueles que habitavam Elysium eram – em sua maioria – corruptos, elitistas, cegos para o sofrimento alheio e claramente egoístas, tendo nas mãos a capacidade de ajudar os outros, mas optando por não o fazer para não estragar seu modo de vida. É esse o tipo de virtude que os tornou valorosos para viver uma vida de privilégio? O dinheiro então compra a carta de indulgência para o paraíso?

A Med Bay, a cápsula médica que pode curar qualquer doença (fonte da imagem: the odyssey online)

Quanto mais você assiste a Elysium, mais questionamentos vão surgindo. Cada vez que você o assiste, novos detalhes são encontrados e pontos de vista que não havia pensado antes. A crítica social à desigualdade, segregação, extremismo e corrupção é sempre atual e com diversas facetas a ser analisada. Tudo isso embrulhado em um pacote com atuações excelentes, efeitos especiais magníficos, cenas de ação muito bem feitas e um visual cuidadosamente pensado.

O que sempre permanece, porém, é que não é porque é assim que as coisas são, que realmente deveriam ser: não se deve aceitar o que está errado simplesmente porque é assim que o sistema funciona; é preciso fazer o que estiver ao seu alcance para que algo mude.

O mundo não será um lugar perfeito, assim como os seres humanos nunca serão perfeitos. Mas com as atitudes de cada um, por menor que sejam, é possível mudar algo para melhor.

Alice Braga como Frey

Conhecida na Lua como Artemis, meu nome aqui na Terra é Kadine. Considero que sou de Serra Negra – sou ariana com ascendente em escorpião. Interessada em tudo que é artístico, tenho um fraco para pesquisar coisas obscuras! Desbravadora de museus, compro mais livros do que consigo ler, interessadíssima em outros idiomas e culturas, colecionadora de chás e canecas, escritora nas horas vagas e gamer noturna para passar raiva com invader em Dark Souls (e relaxar com Devil May Cry ou Resident Evil).