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Pipoca Lunar: História do Cinema com Geórge Méliès e Le Voyage Dans Le Lune – Lune Festa 2020

“Se você já se perguntou de onde vêm seus sonhos quando vai dormir à noite, basta olhar ao redor. É aqui que eles são feitos. ”

― Brian Selznick, The Invention of Hugo Cabret

Muitos de nós sabemos como é difícil entrar e seguir em frente com uma carreira artística. A demanda não é apenas de gosto, amor ou talento, mas também de força, persistência e principalmente, insistência dentre muitos outros atributos. 

Eu, Selene, em particular, tenho meu amor focado no cinema. Em um geral todos os tipos de artes me chamam atenção – como por exemplo a música e a dança. Mas a sétima arte, é a minha paixão

Desde criança tenho memórias e experiências muito boas com o cinema e me aprimorei por conta própria nessa lindíssima forma de se expressar. Fui líder de clube de cinema no meu colégio – sempre escrevi roteiros, histórias e afins – e sempre fui muito curiosa, então me perguntava coisas como: “como tudo seria por de trás das cameras?”, “como os efeitos eram introduzidos?” ou “como os atores eram instruídos?” – e dentre tantas perguntas, a mais frequente era “como tudo isso havia surgido?”

Pois bem, você também está curioso ou sempre se perguntou o mesmo e acabou nunca pesquisando a respeito? Então este post é para você.

Viajaremos neste exato momento para terras Francesas: mais precisamente a um século totalmente diferente. Espero que estejam prontos para embarcar nessa viagem comigo, Sel.

História do Cinema: Sobre Geórge Méliès, O Pai do Cinema de Ficção

Geórge Méliès – O mágico do cinema
(fonte da imagem: britannica.com)

Georges Méliès, nascido em Paris no dia 8 de dezembro de 1861, desde sempre foi encantado com coisas diferentes. Sua imaginação sempre foi muito grande e isso já era demonstrado pelo seu interesse e suas habilidades no desenho desde pequeno. 

Foi por isso que, de primeira opção, acabou se tornando um ilusionista. Mas antes, foi obrigado a trabalhar no ramo de calçados em que seu pai fazia parte. 

Paramos aqui e observamos: naquele tempo, realmente, mesmo que ele quisesse entrar para a Escola Belas Artes, não era possível. Em questão, se observarmos, isso ocorria muito não apenas naquela época, mas hoje em dia também. Muitas mentes brilhantes existiram e existem, mas acabam desistindo daquilo que gostam por aquilo que acabam sendo obrigados a fazer

Mas, Méliès fez algo a respeito.

Assim que seu pai saiu da indústria de calçados, ele se recusou a continuar: vendeu sua parte do negócio e se tornou o dono do grande teatro “Robert Houdin”. Mas nada “veio do nada”, Méliès também trabalhou ao mesmo tempo como repórter e desenhista em um jornal satírico da época chamado “La Griffe” – do qual seu primo era Editor-Chefe.

Em 1891, criou a Académie de Prestidigitation, que foi transformada em 1893 no Sindicato dos Ilusionistas, para legitimar a presença de mágicos itinerantes a trabalhar na rua – até então considerados Romanichels pela polícia. Ele ainda foi capaz de permanecer como presidente por mais ou menos trinta anos.

A minha pessoa em particular é encantada pelos trabalhos de Géorge Méliès.

Seus trabalhos eram além de seu tempo e além da imaginação de muitos.

MUITOS hoje em dia dizem que os efeitos que temos são espetaculares e coisas de outro mundo – mas temos uma vantagem: hoje temos recursos como o avanço tecnológico. 

Mas, e naquela época? 

Trecho do trabalho de Méliès (fonte da imagem: themagiclantern)

O que eles tinham além da pura e transcendente imaginação

Aquele momento foi extremamente crucial para o desenvolvimento real – tanto do cinema, quanto da fotografia e dos efeitos especiais. Eu mesma descobri sobre ele em um filme de 2012: “A invenção de Hugo Cabret”, e imediatamente fiquei obcecada por seus trabalhos.

Uma grande parte das pessoas não sabem a respeito, mas Géorge Méliès foi considerado pai do cinema junto aos irmão Lumière, levando seu título particular de pai do cinema de ficção.

Em minha visão de Selene – a pessoa que está escrevendo este artigo nesse momento – tanto sua história com o cinema, quanto sua história com o ilusionismo são incríveis e cheia de persistência, que REQUERIU muita coragem – afinal, não é do século 21 em que estamos falando.

Inclusive, os irmãos Lumière, em 1895, convidaram Méliès para sua primeira apresentação cinematográfica. Todos sabemos que os pais da Cinematografia foram os irmãos. 

Mas a mente de Méliès era claramente algo a mais – uma mente que gostava de estar em  atividade e sempre se impressionava com coisas novas, querendo também se desafiar cada vez mais a fazer parte de tudo aquilo que via e achava grandioso. Foi isso que o fez lançar uma oferta para comprar o cinematógrafo dos irmãos Lumière, que não aceitaram a proposta justamente por terem outra opinião sobre a invenção: para eles aquilo seria usado para a ciência e para Melies, aquilo se tornaria um mundo completamente diferente

Eu me encantei a partir do momento em que vi que, mesmo com a rejeição sobre a compra do cinematógrafo, Méliès não desistiu e acabou por comprar a invenção de outra pessoa, transformando aquilo futuramente em sua primeira “câmera”. Méliàs brincava com a iluminação e abusava de diversos efeitos – e foi então que ele finalmente decidiu investir em seus próprios talentos, vendendo seu teatro e usando o dinheiro para abrir seu próprio estúdio de cinema: Star Film.

The Star Film já oferecia 34 filmes em seu catálogo, aos quais seriam adicionados 29 em 1901.

Le Voyage Dans La Lune, 1902

Cartaz de Le Voyage Dans La Lune (fonte da imagem: apreciacioncinetec)

Le Voyage Dans La Lune  (A Viagem à Lua), nosso tópico principal e especial de hoje, é uma das maiores e mais reconhecidas obras de Géorge Méliès. Inspirada no romance de Júlio Verne, Da Terra A Lua – que, por sinal, eu mesma, em dias de ensino médio, li dentre tantos livros – e  The First Man In The Moon de H.G Wells, Méliès nos traz uma magnífica e mágica história na qual os maiores astrônomos da sociedade de astronomia decidem, durante uma reunião, embarcar para uma viagem à lua.

É nessa mesma obra que a imagem mais famosa de seus trabalhos surgiu: a cápsula que levava os astrônomos pousando no olho do “Homem da Lua”.

Este filme quebra todos os recordes: em comprimento (260 metros), tempo de filmagem (três meses) e preço de custo (10.000 francos). O filme tem tanto sucesso comercial que foi pirateado várias vezes, especialmente nos Estados Unidos pela empresa de Thomas Edison – isso mesmo que vocês leram, existe até Thomas Edison na história, mas isso fica para outra viagem do Lune, quem sabe.

Trecho do filme Le Voyage Dans La Lune para assistir no Youtube!

Declínio de Géorge Méliès

Géoge Méliès em sua loja de brinquedos com sua esposa (fonte da imagem: cantitbeallsosimple)

O mais fascinante é que Méliès, além de ter produzido mais de 500 filmes, também tinha cenas coloridas – pintadas à mão – coisa que para aquele tempo não eram comum. Seu declínio com o cinema se deu por conta da Primeira Guerra mundial – em um momento de fúria e desespero depois da morte de sua primeira esposa, que o deixou com dois filhos, queimou seu estoque de coisas que faziam parte de sua carreira.

O próprio Méliès, em um momento de raiva, queimou seu estoque em Montreuil”, conta Madeleine Malthête-Méliès, sua neta, quando ainda era pequena

Seus filmes ou são destruídosprincipalmente derretidos para extrair a prata – ou vendidos: recuperados em peso e transformados em celulóide para fabricar saltos de sapatos. Foram milhares de perdas em patrimônios, mas nem tudo foi perdido. Anos depois, acabou sendo recuperado um pedaço completo do filme Le Voyage Dans La Lune em 2002. Ela foi restaurada e apresentada pela primeira vez em 2003 no Pordenone Silent Film Festival.

Sim, mesmo com sua persistência, eram tempos difíceis e as pessoas, com a guerra, não viam mais a realidade da mesma forma. Uma grande tristeza para um mágico e gênio surrealista, diretor e produtor, ator de cinema. 

Jeanne D’Alcy em Le Voyage Dans La Lune (fonte da imagem: memoriascinematograficas)

Méliès acabou se desligando de sua carreira completamente quando, em 1925, se reencontrou com Jeanne d’Alcy – sua atriz favorita, dona de uma loja de brinquedos e doces no corredor da estação Montparnasse. Eles se casaram e Méliès se sentou com ela atrás do balcão da loja. 

Foi lá que Léon Druhot, o diretor do Ciné-Journal, o encontrou em 1929 e o tirou do esquecimento. Patrocinado por Louis Lumière, recebeu a Legião de Honra em 22 de outubro de 1931 isso mesmo, exatamente no mesmo mês em que o Lune Station e eu Sel decidimos falar sobre sua vida aqui!

Château d’Orly, casa de repouso da Mutuelle du Cinéma, foi seu último lar com sua amada Jeanne d’Alcy. 

Assim, Géorge Méliès morreu lá em 1938, mas deixou um legado absurdo para trás. 

Bônus: Algumas Curiosidades!

Géorge e sua segunda esposa Jeanne (fonte da imagem: facebook)

Para terminar essa viagem pela história do cinema e a vida de Méliès, muitas curiosidades interessantes foram surgindo conforme minhas pesquisas sobre ele avançavam. 

O filme foi escolhido como um dos cem melhores filmes do século XX no ranking da The Village Voice, ocupando a posição de número 84 – isso mesmo: de 1902 até hoje, o filme e sua história não foram deixados para trás Géorge Méliès vive com seu legado mesmo depois de muitos anos.

Além disso, vocês ja ouviram falar na famosa lista do livro “1001 Filmes para Ver antes de Morrer” de Steven Jay Schneider, certo? Pois bem, ele é o filme mais antigo citado nela, isso não é surreal? Imaginem como ele se sentiria vendo o tamanho do reconhecimento internacional que ganhou após tantos momentos de altos e baixos em sua vida.

Hoje, Le Voyage Dans La Lune possui domínio público, pois seus direitos autorais já expiraram.

Caso estejam curiosos e nunca assistiram “A invenção de Hugo Cabret”, do diretor Martin Scorsese, deixo aqui a recomendação juntamente com um vídeo que contém a pequena porém importante biografia de George Melies.  

“O Cineasta Géorge Méliès foi o primeiro a perceber que os filmes tinham o poder de capturar sonhos. ”

― Brian Selznick, The Invention of Hugo Cabret

Trecho do Filme “A Invenção de Hugo Cabret”

A invenção de Hugo cabret é de longe um de meus filmes favoritos – suas cores, sua história e tudo que ele carrega sobre Géorge Méliès é incrível, não é? 

Nós da Irmandade da Lua também achamos! Diga para nós o que achou nos comentários!

Lune Festa 2020

Com esse post, encerramos o primeiro Lune Festa! Caso você queira dar uma olhada nos posts anteriores, é só checar os links abaixo:

It’s Lay time!!! Eu sou a Laysa, mais conhecida neste espaço como Selene. Nascida no interior de São Paulo e criada em diversos lugares. Aquariana – sim, lidem com isso! – amante de tudo ligado à cultura geral, história, idiomas, livros, playlists aleatórias, escrever e fotografias. E devo deixar claro que o cinema é a minha paixão.

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