Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: Histórias Cruzadas e o “White Savior”

Nossa semana é especial: falamos da importância de sabermos nosso lugar de fala e entendermos que existe distinção no mundo

O respeito serve para todas as cores, etnias, idades, crenças – dentre outras coisas

O respeito foi feito para os seres humanos.

Existem tantos filmes que eu poderia comentar, mas Histórias Cruzadas (The Help) é o exemplo perfeito para trazer ao nosso site no dia de hoje. 

Lembro quando o assisti pela primeira vez, anos atrás. Posso afirmar que me encantei com a história e me revoltei com as verdades presentes nele – pelo menos, o impacto que ele trouxe para mim mudou muito a forma de pensar em vários aspectos.

Afinal, tem sim seus pontos positivos que não podem ser descartados.

Mas, com os anos, também descobri algo que lá trás eu não conhecia – e nós o chamamos de “White Savior”. Esse é o termo usado para descrever esse filme que, no final das contas, preza um “herói branco” e cala aqueles que realmente devem ser vistos como a voz da história.

Vocês estão prontos para escutar sobre como Histórias Cruzadas foi de um grande e prezado filme contra o racismo a um filme criticado e não recomendado nem mesmo pelas atrizes dele?

Eu espero que sim, pois aqui vamos nós para Jackson, Mississippi!

Fonte da imagem: jornada geek

Histórias Cruzadas

The Help (Histórias Cruzadas) é um filme de drama indo-emirático-estadunidense de 2011 dirigido por Tate Taylor, baseado no livro romance de Kathryn Stockett

O filme é um retrato sobre uma mulher caucasiana, Eugenia “Skeeter” Phelan, e o seu relacionamento com duas empregadas negras durante a era americana dos Direitos Civis de 1960. Skeeter é uma jornalista que decide escrever um livro da perspectiva das empregadas (conhecido como The Help), mostrando como elas estão sofrendo racismo na casa de brancos.

O filme é ambientado em Jackson, Mississippi, e conta com Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Sissy Spacek, Mike Vogel, Mary Steenburgen e Allison Janney – olha só, mais uma vez nossa queridíssima Octavia aparecendo por aqui com mais um elenco exuberante

The Help teve boa crítica e tornou-se um grande sucesso. Em 29 de janeiro, o elenco recebeu o Screen Actors Guild Awards de Melhor Elenco em cinema.

Sobre o Filme

fonte da imagem: vix

Histórias cruzadas é um filme que aborda absolutamente todos os tipos de experiência em que na época de 60 era comum ver. Empregadas passavam por situações absurdas pelo simples fato de sua cor da pele ser diferente de seus empregadoresmostra como eram tratadas, como a injustiça era comum e, principalmente, como tudo era visto. 

O filme retrata o ano de 1963, em Jackson, Mississippi, onde Aibileen Clark (Viola Davis) é uma empregada doméstica negra que gasta sua vida cuidando de crianças brancas depois da morte de seu único filho em um acidente industrial.

Ela trabalha para a família Leefolt, tendo principalmente cuidado dos filhos de Elizabeth Leefolt (Ahna O’Reilly) – uma jovem que sofreu com depressão pós-parto e que se recusa a dar afeto à sua filha, exceto quando tem que disciplinar a garotinha. A melhor amiga de Aibileen é Minny Jackson (Octavia Spencer), uma empregada negra que trabalhou durante muito tempo para a mãe de Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), a senhora Walters (Sissy Spacek), a tal ponto que elas são muito próximas. 

fonte da imagem: jornada.com

O temperamento de Minny não falha – eu diria que a melhor coisa do filme é como o humor dela é abordado, sem dúvidas – e acaba sendo tolerado devido ao respeito por suas grandes habilidades culinárias.

Eugenia “Skeeter” Phelan (Emma Stone) é uma jovem branca de pensamento independente que, retornando para a plantação da família depois de se formar pela Universidade do Mississippi, descobre que sua empregada de infância a quem era muito apegada, Constantine (Cicely Tyson), partiu enquanto ela estava longe.

Por não poder se despedir e nem mesmo dar suporte, fica perplexa, pois acredita que Constantine não teria ido embora sem escrever. Até o momento que ela finalmente descobre que sua mãe, Charlotte (Allison Janney), demitiu Constantine no início do ano.

Exatamente pelo fato de Skeeter não ter nenhum dos objetivos das pessoas da idade dela naquela época, era vista como diferente. Todo o grupo social acha que Skeeter frequentou a faculdade para encontrar maridos, não para realmente ter uma carreira. Skeeter ganhou uma orientadora e continua a ser única, para grande desgosto de Charlotte, sem marido. Além de que pretende seguir uma carreira de escritora de sucesso

Ok, aqui vamos nós para entender o motivo de toda a polêmica envolvendo o filme nos últimos anos.

O que é o termo “White Savior”?

“O termo “salvador branco”, às vezes combinado com “complexo de salvador” para escrever complexo de salvador branco , refere-se à uma pessoa branca que fornece ajuda a pessoas não brancas de uma maneira egoísta . 

O papel é considerado uma versão moderna do que é expresso no poema “The White Man’s Burden” (1899) de Rudyard Kipling. 

O termo foi associado à África, e certos personagens no cinema e na televisão foram criticados como figuras salvadoras brancas. O escritor Teju Cole combinou o termo com “complexo industrial” (derivado de complexo militar-industrial e aplicado de forma semelhante em outro lugar) para cunhar o “Complexo Industrial do Salvador Branco”. 

Você, que assistiu ao filme, sabe que a história é ao redor de Skeeter: uma garota branca de classe considerável, estudada e cheia de oportunidades, porque ela é a pessoa responsável pela escrita do “The Help”, no qual conta as histórias das empregadas.

Você provavelmente irá dizer que a “causa” de Skeeter era genuína, e eu mesma acredito nisso vendo de uma perspectiva básica da personagem, mas, ainda assim, olhando um pouco mais embaixo, quem ganharia fazendo tudo aquilo?

White Savior em Produções Cinematográficas

No filme, o salvador branco é um tropo cinematográfico em que um personagem branco resgata pessoas de cor de sua situação. O salvador branco é retratado como messiânico e muitas vezes aprende algo sobre si mesmo no processo de resgate.

O tropo reflete como a mídia representa as relações raciais, racializando conceitos, como moralidade, como identificáveis ​​com pessoas brancas sobre pessoas não brancas. Os salvadores brancos são freqüentemente homens e, às vezes, estão fora de lugar em sua própria sociedade até que liderem minorias ou estrangeiros. 

São rotuladas as histórias como fantasias que “são essencialmente grandiosas, exibicionistas e narcisistas”. Os tipos de histórias incluem viagens de brancos a locais asiáticos “exóticos”; defesa branca contra o racismo no sul dos Estados Unidos; ou protagonistas brancos com ajudantes “racialmente diversos”.

Os salvadores brancos também podem ser mulheres, como o personagem de Sandra Bullock em The Blind Side . A história é indireta, sobre como a crença de uma família branca em um menino negro permitiu que ele se tornasse quem realmente era. Sem eles, seu potencial nunca teria sido realizado. Portanto, ainda emprega dinâmicas de poder de exploração de alguém que precisa ser “salvo”.

Histórias Cruzadas se encaixa em todos os parâmetros de descrição, vocês não acham?

Analisando como eram as circunstâncias naquela época, a represália era grande demais para que liberassem suas historias, mas, ainda assim, eram feitas mesmo antes da abolição da escravidão acontecer. Isso nos leva a pensar – simplificando a narrativa da forma colocada no filme – que se Skeeter, uma mulher branca, não tivesse aparecido e sido corajosa o suficiente para escrever sobre elas, aquelas mulheres sobre quem ela escreveu “nunca teriam encontrado a contínua luta negra pela igualdade”.

fonte da imagem: daily mail

A própria autora foi processada por colocar as histórias no livro sem a permissão de Ablene Cooper – uma mulher negra que trabalhou para a família da autora. O processo é a respeito de ela ter usado e distorcido sua história de maneira humilhante.

O Individualismo e o Sistema

Um dos problemas principais com a narrativa de “white savior” é que, enquanto nós sabemos que racismo é profundamente sistêmico, esses filmes muitas vezes exploram unicamente um lado individual

Em Histórias Cruzadas, a maior parte de racismo assume a forma de comentários de preconceito entre pessoas brancas. O problema com o foco individual no salvador branco é, talvez, melhor observado em dois subgêneros particulares da história: “White Savior” de filmes de Esportes e “White Savior” de filmes educacionais

Em geral, se notarmos, diversos filmes de esportes mostram um treinador branco chegando para “refazer” um time de pessoas negras, liderando-os à vitória no final; igualmente na narrativa educacional, na qual encontramos um professor branco que inspira uma mudança repentina em uma escola de negros, ou na vida deles para melhor – obviamente sendo julgado por companheiros do mesmo sistema educacional

O que todos esses filmes trazem em comum em cada história é a existência de um personagem inspirador e valente que também carrega um passado ou experiência de violência e trauma em conjunto. Ainda assim, esses filmes não nos levam diretamente a uma investigação profunda e sistêmica do porque aquilo acontece; do porque serem negligenciados, sofrerem violências e traumas; do porque passam por aquelas situações. Então, consequentemente, quais ideias de mudanças real nos temos?

Nenhuma. 

Normalmente, a mensagem que passam é considerada vaga, mostrando apenas união e bondade – mas isso não ajuda a pensarmos em o que realmente devemos fazer para mudar nossa sociedade. Um ato de bondade de alguém que simplesmente se importa, não é o suficiente

Um dos indicados na narrativa “white savior”: Green Book (fonte da imagem: huffpostbrasil)

O foco no racismo no nível individual também cria a ilusão de bons e maus brancos, separando aqueles que escolheram ser racistas e aqueles que não. Isso nos leva à diversidade de representação de Hilly, a branca que escolheu ser má, que implantou o plano de banheiros separados para domésticas na parte de fora da casa por acusar terem doenças diferentes das deles (brancos). Suponho que todos já ouvimos falar ou estudamos nas escolas a respeito da Segregação. 

“Isolamento forçado de um grupo para o afastar do grupo principal ou de outros; discriminação: segregação racial.”

Hilly era alguém influente em sua comunidade que incitava esse tipo de ato e, por isso, obviamente era tida como racista. 

Diferente de Skeeter, juntamente com Celine, que eram o contrário de Hilly. 

Skeeter, por ser parte do ciclo social de Hilly, conhece a problemática, mas não faz nada até descobrir sobre o motivo de sua empregada ter sido demitida. Isso mostra e prende o telespectador em uma figura admirável não-racista.

fonte da imagem: NY Times

Além de ser narrativas focadas no passado para nos “mostrar” o quão longe viemos, como se muitas coisas tivessem mudado. Como se o preconceito que existia antes, não fosse o mesmo que ainda vemos inserido em nossa sociedade hoje em dia. Deixando claro que, no final do dia, sempre seriam eles quem tirariam uma lição daquilo ou receberam algum tipo de prêmio significativo.

Contando com isso, em meios cinematográficos é comum vermos não apenas dentro de filmes, mas por todos os lugares – como em premiações.

“Mais de 3.100 estatuetas foram distribuídas em todas as edições do Oscar e apenas 44 dessas foram para pessoas negras.”

Todos os sabemos que, há muito tempo, existem protestos em grandes premiações como Oscar, Globo de Ouro, entre outras importantes – incluindo Screen Actors Guild Awards, que foi um prêmio que “Histórias Cruzadas” levou como Melhor Elenco.

Claramente há uma diferença entre a quantidade de prêmios para indigenas, negros e orientais, e ainda há uma abertura bem pequena para indivíduos que não são parte de uma panelinha criada pela indústria. Isso nos mostra o quanto a mudança caminha de forma lenta, sendo uma luta continua.

Por isso a importância de indivíduos como Chadwick Boseman, Viola Davis, Lupita Nyong’o, Yalitza Aparicio, Guillermo Del Toro, Bong Joon Ho – e outros nomes que foram incluídos nas listas de vencedores. Mas, ainda sim, continuam não sendo o suficiente.

fonte da imagem: hipertextual

Destacando a importância de Chadwick ter interpretado o primeiro super-heroi negro da história e levando diversos prêmios nas indicações em 2019.

Em 2016, diversos artistas de Hollywood organizaram um boicote ao Oscar

O motivo era simples: entender sua persistência na falta de inclusão em pleno século 21. Tanto se falava sobre direitos e a premiação não refletia isso de forma alguma. Spike Lee, Will e Jada Smith, são exemplos de nomes influentes que questionaram a falta de representatividade negra entre os indicados pela Academia. 

Trazendo, depois da última edição do prêmio, em 2019, um total de 3.140 estatuetasapenas 44 foram para profissionais negros.

Enfim, o mito do “white savior” é ilustrado como “mostrando compaixão a uma pessoa não branca – sendo essa indígena, negra, oriental – podem absolver-se do próprio privilégio. No final, enquanto o branco salvador é posicionado como um relativamente altruísta, a resolução quase sempre o lidera a ser recompensado com algum tipo de cumprimento pessoal”.

Essa tendência de salvador branco leva a um outro termo, usado quando o negro é usado cinematograficamente como “conselheiro” de uma reconstrução pessoal do personagem branco – sendo pelos pensamentos, situação pessoal de trauma ou violência, ou a situação em que se encontra no momento.

Outro filme que mostra claramente o exemplo do termo (fonte da imagem: other sociologist)

“No cinema dos Estados Unidos, o Negro Mágico é um personagem coadjuvante que ajuda os protagonistas brancos em um filme. Personagens mágicos negros, que muitas vezes possuem uma visão especial ou poderes místicos, há muito são uma tradição na ficção americana”

Obviamente estamos colocando em pauta países como EUA pelo reconhecimento maior da indústria vir de lá. 

Mas isso não nos impede de dizer que, no Brasil, o racismo e a indiferença continua sim, presente. 

Muitos filmes que têm o white savior terminam com um final no qual a narrativa leva a um mundo ainda não perfeito, mas que, por aquele momento ou abertura levada pelo protagonista, é considerado uma resolução – que, ao meu ver, o termo que poderia ser usado seria: “que deixa o coração quentinho”.

Isso mesmo! 

Caro leitor, eu posso ouvir seus pensamentos daqui; você deve estar se perguntando: E qual é o problema com esses finais? 

Eu te respondo que: para a superfície humana, nenhum! Mas te pergunto também: você já prestou atenção em como filmes de roteiristas/diretores negros que mostram esse tipo de narrativa sobre racismo, terminam? 

Normalmente é o contrário: a audiência deixa o filme sentindo-se desafiada, confrontada e até mesmo angustiada e confusa. 

E isso tudo nos leva aos casos de protestos como “Black Lives Matter” e a indiferença de pessoas no poder que vimos esse ano – são coisas que nos mostram que essa luta diária ainda acontece. Em todo o mundo.

Existem milhares de pessoas como Georgie Floyd no mundo em que vivemos durante todos esses anos.

Esses filmes nos mostram que o racismo e o preconceito não são um passado distante e que continuam muito presentes em nossa sociedade nos dias de hoje

“Em uma sociedade racista não basta ser não racista, devemos ser anti-racistas.”

– Angela Y. Davis

Devemos escolher as narrativas que nos desafiam a uma mudança, que nos dão sentimento de real entendimento – e não as que nos confortam. Seguindo, assim, a linha de educarmos a nós mesmos tanto quanto educarmos as pessoas ao nosso redor para que entendam o quanto o racismo e o preconceito é infiltrado em nosso sistema. 

Exatamente por isso que eu, Sel, deixarei abaixo uma lista de filmes que vocês precisam assistir sobre o assunto: 

  • Black Panther (Pantera Negra)
  • Get Out (Corra!)
  • Sorry To Bother You (Desculpe te Incomodar)
  • The Hate You Give (O Ódio que Você Semeia)
  • Just Mercy (Luta Por Justiça) 
  • If Beale Street Could Talk (Se a Rua Beale Falasse)
  • The Butler (O Mordomo)

Finalizo esse post com essas indicações. 

E te pergunto, mais uma vez, quais são as suas contribuições para uma mudança? Você tem se conformado com os finais “que deixam o coração quentinho”, ou você tem se desafiado com aqueles que te mostram a verdade? Nós da Irmandade da Lua achamos que a torta especial da Minny deveria ser entregue a muitas pessoas, instituições e grupos que existem por aí e você? O que você acha? 

Deixe seu comentário nos contando seus pensamentos a respeito desse filme – “Histórias Cruzadas” – e também sobre as indicações que eu deixei para vocês!

Espero que consigam analisar a diferença entre eles e tudo que foi citado aqui, relacionando com a situação geral na qual vivemos, na que vivíamos e na que vamos seguir se não contribuirmos para uma mudança necessária. 

Espero que vejam e entendam como salvador branco foi implantado por muitos anos e como nós não percebemos. 

Não se esqueça: Racismo é crime, Denuncie! 

It’s Lay time!!! Eu sou a Laysa, mais conhecida neste espaço como Selene. Nascida no interior de São Paulo e criada em diversos lugares. Aquariana – sim, lidem com isso! – amante de tudo ligado à cultura geral, história, idiomas, livros, playlists aleatórias, escrever e fotografias. E devo deixar claro que o cinema é a minha paixão.