Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: Infiltrado na Klan – Da Vida Real Para o Cinema

Você já pensou na possibilidade de um policial negro se infiltrar na Ku Klux Klan – maior grupo de supremacia branca dos EUA – durante os anos 70? O filme Infiltrado na Klan é exatamente sobre isso!

Com uma premissa doida dessas e ainda por ser baseado em fatos reais, o filme de Spike Lee nos faz entender melhor o movimento pela igualdade dos negros nos EUA, além de apresentar as maluquices de grupos extremistas e terroristas baseados na supremacia branca.

Trailer legendado do filme

Além disso, o filme também traz paralelos com os acontecimentos atuais: movimentos a favor da luta dos negros por conta de – mas não exclusivamentemortes de negros inocentes pelas mãos de policiais brancos.

Apesar de tudo, o filme nos traz com um humor bem sarcástico as problemáticas que infelizmente enfrentamos até hoje, fazendo com que haja identificação com o tema proposto ou faça com quem o assiste enfrentar o seu próprio privilégio em uma sociedade primariamente a favor de pessoas brancas.

Eu, Art, vou com o meu trem hoje para Colorado Springs dos anos 70 – se quiser me acompanhar, pule no meu vagão e vamos nessa!

Ron Stallworth e a Infiltração na Ku Klux Klan

Antes de falar mais sobre o filme, acho legal conhecermos sobre os fatos da história!

Muito antes dos anos 70, o movimento pelos direitos civis nos EUA já lutava pelo fim da segregação racial e igualdade de direitos para a população negra. A Hekate falou desse tema de uma maneira muito legal no post dela sobre a Nina Simone – então sugiro a leitura para entender melhor!

Imagem de mulheres negras em passeata a favor dos direitos civis nos anos 60 (fonte da imagem: History)

Com os movimentos a favor dos direitos civis, surgiu a oposição: a Ku Klux Klan retomou sua forma para ir contra os movimentos. Muitos de seus membros, inclusive, foram condenados por assassinato – como o bombardeio em Birmingham em 1963, mencionado no post da Hekate.

Mas o que é a Ku Klux Klan?

Fundada após a Guerra Civil Americana (1861-65), tendo sumido e retornado em vários períodos da história, a Ku Klux Klan é um grupo que visa a supremacia branca através de um discurso de ódio, adotando posições como: Nativismo, Anti-Imigração, Anti-miscigenação, Anti-comunismo, Populismo de Extrema Direita, Antisemitismo, Antifeminismo, Anti-ateísmo, Anti-aborto, Neo-fascimo e Neo-nazismo, Anti-Islamismo, Anti-LGBTQ+ e Terrorismo Cristão; atacando principalmente negros – mas também judeus, imigrantes, homossexuais, esquerdistas, Islãs e Católicos.

Ufa. Nunca achei que ia escrever tanta coisa ruim baseada em ódio em um parágrafo só, mas cá estamos.

Ron Stallworth: o policial que se infiltrou na Klan (fonte da imagem: wikipedia)

Em 1979, Ron Stallworth – um policial negro de Colorado Springs, no Colorado, EUA – notou um anúncio no jornal recrutando pessoas para um novo capítulo da KKK na cidade. Respondendo ao anúncio por carta, dizendo que odiava negros, judeus, mexicanos e asiáticos, Ron logo recebeu uma ligação dizendo que procuravam gente como ele, pedindo para encontrá-lo em um bar.

Enviando um policial branco como um agente disfarçado – que Ron chama de “Chuck” apesar de não ser o nome real do policial – Ron se infiltrou na Ku Klux Klan, ganhando inclusive sua carteirinha de membro, que ele guarda até hoje em sua carteira.

Essa carteirinha foi supervisionada e assinada pessoalmente por David Duke, o “Grand Wizard” da Klan na época. Ron somente pôde falar dessa história em 2006 e, até aquele ano, David Duke não tinha ideia que Ron era negro.

Ron e sua carteirinha de membro da Klan (fonte da imagem: Robert Moore/Special to Colorado Politics)

Essa operação durou 7 meses e meio. Os resultados alcançados pelo time de Ron foram evitar três queimas de cruzes (classificado como um ato de terrorismo nos EUA) e a identificação de dois membros da Klan no Comando Norte Americano de Defesa Aérea (North America Air Defense Command) que tinham acesso a informações de segurança máxima e, por conta das investigações, foram remanejados pelo Pentágono ao que Ron se referiu de “Pólo Norte”.

Ele foi tão bem sucedido em sua missão, que foi indicado a ser o presidente do capítulo da KKK em Colorado Springs. Ao contar isso ao chefe da polícia, foi orientado a terminar a investigação naquele momento e a destruir os arquivos da investigação.

Quando ninguém estava olhando, porém, Ron levou esses arquivos para a própria casa, recusando-se a destruí-los.

Fica abaixo um vídeo com uma entrevista a Ron Stallworth pela Business Insider. Não consegui encontrar com legenda em inglês, mas vale a pena assistir e tentar entender enquanto ele mesmo conta essa incrível história:

“Grupos como a Ku Klux Klan, neo nazistas, skinheads… Tudo bem, chame-os como você quiser. Eles são basicamente todos os mesmos. Nós precisamos estar cientes de quem eles são, o que eles são, por que eles são. E precisamos falar sobre esses problemas quando eles aparecem. Muitas pessoas têm muito medo de falar desses problemas de raça. Nós precisamos estar prontos para falar sobre eles e, mais importante, quando eles levantarem suas cabeças feias nós precisamos estar dispostos a tomar uma posição e tentar pisoteá-los, qualquer que seja a ação, em um certo momento.”

– Ron Stallworth para Business Insider, traduzido por Artemis

Infiltrado na Klan: Da Vida Real Para as Telas do Cinema

Cartaz do filme (fonte da imagem: wikipedia)

Com uma história dessas, quem não ia querer fazer um filme?

Em 2018, Spike Lee trouxe o filme Infiltrado na Klan (título em inglês: BlacKkKlansman), com grandes atores como John David Washington, Adam Driver e Laura Harrier para liderar o longa.

Seguimos a história de Ron Stallworth (John David Washington) como policial negro em Colorado Springs. Inicialmente designado para o setor de arquivos, consegue um trabalho em campo para ir à paisana em uma reunião dos Panteras Negras – que é um dos maiores contrapontos à Ku Klux Klan – a fim de se certificar de que não se tornariam um grupo radical.

É nesse momento que conhecemos Patrice Dumas (Laura Harrier), líder da União dos Estudantes Negros (Black Student Union). Ao longo do filme, Ron e Patrice começam um relacionamento apesar de ter ideias diferentes sobre os movimentos pelos direitos dos negros. Enquanto Patrice toma uma posição mais radical e extrema, Ron tem uma posição mais moderada, sendo que ambos trabalham para o mesmo objetivo.

Ron e Patrice (fonte da imagem: Quilombo Cibernético)

Durante um dia de trabalho, vendo um anúncio de jornal recrutando membros para a Ku Klux Klan, Ron liga para o número e diz odiar, principalmente, negros, querendo defender a América branca. Isso certamente chama a atenção de todos seus colegas de trabalho.

E é aí que ele se infiltra na Klan. Precisando de alguém para ir nos encontros e se passar por ele, Flip Zimmerman (Adam Driver) incorpora o papel do “Ron Stallworth racista” e começa a frequentar os encontros da Ku Klux Klan.

Os membros se referem somente como “A Organização”, enquanto espalham flyers pela cidade, causando inquietação e receio na parte negra da população. Enquanto isso, as investigações continuam, sendo que um dos maiores objetivos é juntar informações sobre David Duke (Topher Grace), “Grand Wizard” da Klan, que está se candidatando e, portanto, apresenta um grande risco se ingressar na política do país.

Ron e Flip (fonte da imagem: NY Times)

Qualquer outra coisa que eu contar sobre o filme, vai estragar a experiência para quem ainda não assistiu! Então recomendo fortemente: assista a Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)!

E De Volta à Vida Real

Por que escolhi falar justamente desse filme hoje?

Bom, acredito que Infiltrado na Klan nos traz tantas coisas que precisamos pensar sobre privilégios, racismo, extremismo, supremacia branca, Black Power, ações terroristas, política, violência policial… E a lista é realmente extensa.

O filme incomoda com o racismo escancarado e estúpido contra, principalmente, os negros – apesar de virar isso de ponta cabeça ao tratar as situações com ironia e sarcasmo. Afinal, o filme trata de um homem negro membro da Ku Klux Klan. Não dá pra ser mais irônico que isso.

Apesar disso, consegue retratar até que ponto chega a ignorância das pessoas. Temos uma cena em que um membro da Ku Klux Klan nega veementemente o Holocausto. Eu, quando estava assistindo, achei um absurdo e comecei a rir, porque não era possível que aquilo era sério.

Mas era. A ignorância humana é tão grande quando se trata de racismo e manias supremacistas, que é possível existir pessoas que acreditam em coisas absurdas para defender os próprios pontos de vista também absurdos.

Patrice e Ron unindo forças (fonte da imagem: pinterest)

Outro ponto que o filme traz é a ideia de “se passar” por algo. Tanto Flip quanto Ron ficam tentando se encaixar em uma sociedade cujo significado de sucesso é ter a vida padrão de um homem branco norte americano, com as mesmas crenças e mantendo o sistema de privilégios de um só grupo seleto em detrimento de outros. Ambos personagens se conectam mais com a própria identidade ao invés de ficar se passando por algo que não são realmente somente para se encaixar no sistema.

Temos também embates de ideias extremistas e radicais – muito parecido com o que vivemos hoje em dia na política entre extrema esquerda e extrema direita – e cenas que servem de contraponto direto e óbvio contra a outra (afinal, quem não percebe com os membros da Klan gritando white power enquanto os negros gritam Black Power?).

Donald Trump usando um boné com seu slogan durante a campanha presidencial (fonte da imagem: Business Insider)

É muito interessante também notar o padrão de discurso dos personagens do filme. David Duke usa expressões como “retomar a América” e “Deus abençoe a América branca”, em um paralelo escancarado com Donald Trump, ex-presidente dos EUA, com seus discursos de “vamos fazer a América grande novamente” e racismo constante contra pessoas de cor em geral (do termo em inglês “people of color”, usado para falar não somente dos negros, mas de todas as raças que não são brancas).

Além disso, o filme deixa um gosto amargo na boca ao final, com imagens de protestos contra a violência policial nos EUA – cada vez mais noticiada e escancarada, que acabou gerando movimentos como Black Lives Matter em 2020 – além de passeatas de supremacia branca. É evidente que, havendo pessoas no governo que dão suporte e compactuam com essas ideias – por mais absurdas que sejam – há um incentivo para que grupos como a Ku Klux Klan não permaneçam mais escondidos e, pior ainda, procurem ingressar na política para impor seus ideais opressores.

Mulheres negras protestando no movimento Black Lives Matter (fonte da imagem: BBC)

Como pessoa branca, o filme me fez entender melhor sobre os meus privilégios, sobre os absurdos que existem nesse mundo e a luta do povo negro – e outras minorias – por igualdade e respeito. Não é suficiente só não sermos racistas: precisamos também nos opor e falar quando encontrarmos uma situação de racismo.

Sei que é mais fácil falar do que agir. Mas precisamos pelo menos tentar. Não é uma mudança fácil e tomar atitudes pode até parecer assustador, mas, como o próprio Ron Stallworth disse, precisamos tomar uma posição e tentar acabar com isso quando o racismo erguer sua cabeça horrenda.

O racismo existe e não sumiu – como muitos filmes gostam de fazer parecer com finais felizes e bem humorados. Em pleno 2020, o racismo ainda está vivo e com progresso menor do que esperado na sua luta contra. É importante nos educarmos e sabermos lutar contra esse sistema imposto por ideias antiquadas e repletas de ódio.

E Como Ser Um Melhor Aliado?

Estou feliz que você perguntou.

Andei assistindo vários vídeos sobre colorismo, privilégio branco, uso de vocabulário próprio do povo negro, apropriação cultural e etc. para entender melhor sobre todas essas questões – afinal, eu sou parte da sociedade e responsável por uma parte da mudança, não é mesmo?

Nisso, encontrei um vídeo muito interessante com dicas de como ser um bom aliado, feito pela artista Ahsante: vou deixar o link abaixo, mas, infelizmente, não tem legendas em português. Por isso, vou trazer um pouco do que ela falou nesse post!

Lembrando que essas não são as únicas dicas: são parte do ponto de vista da artista enquanto mulher negra na sociedade. Apesar disso, acho um bom lugar para começar, continuando sempre com pesquisas para se tornar um ser humano melhor na sociedade.

Primeira coisa a se lembrar: ser um aliado não indica ser passivo. O fato de você falar “nossa que absurdo, o racismo é terrível, eu te entendo e sou super contranão faz de você automaticamente um aliado a qualquer causa de qualquer minoria.

“Ser um aliado é um processo ativo que você está sempre trabalhando nele”

Agora, para as dicas em si!

Primeiro: Escute e se Eduque! Sinta-se à vontade para fazer perguntas, mas lembre-se que hoje em dia temos algo incrível: o Google! Ele pode te ajudar muito! Se tiver dúvidas, não entender conceitos e, principalmente, se quiser entender melhor sobre os movimentos, o Google pode te ajudar com muitos recursos, desde artigos mais leves até artigos científicos.

“Então mesmo que você ache que já ouviu de tudo: escute.”

Segundo: Eleve Vozes Marginalizadas. Use da diversidade que existe no mundo! Existem diversos profissionais, artistas, escritores, políticos – e etc., e etc. – que fazem parte de minorias: traga-os para seus meios de discussões! Faça com que outros conheçam o trabalho deles também!

“Onde você conseguir, traga pessoas diversas para a conversa.”

Terceiro: Fale! Quando você encontrar uma situação de racismo, tome uma posição! Aponte para a pessoa que está cometendo esse crime que de fato ela está sendo racista. Apesar de parecer difícil e desconfortável, acho muito mais complicado alguém ter que se defender por ser tratado como menos que humano por uma coisa tão ordinária como a cor da pele do que defender alguém que está sofrendo isso. Como a própria artista diz no vídeo: como aliado, você está numa posição de privilégio e tem menos probabilidade de retaliação.

“Alcance as suas comunidades que eu não tenho acesso; use seu privilégio para falar onde outras pessoas seriam silenciadas.”

Quarto: Respeite Espaços Seguros! Não, ninguém quer ficar militando e debatendo a todo segundo. Todo mundo tem vontade de estar perto de pessoas com quem pode se sentir confortável para ser quem realmente é e com experiências parecidas, que já compreendem sem precisar ficar explicando toda hora. É preciso respeitar feriados e movimentos como Consciência Negra, Parada Gay, inclusão de minorias em grandes mídias, e etc.

“Respeite os espaços e épocas do ano em que pessoas que geralmente são marginalizadas tomam o palco principal. Se você é um aliado, você estará ok com o fato de que isso não é sobre você e às vezes isso significa se retirar educadamente de espaços destinados especificamente para grupos marginalizados.”

Quinto: Vá ao Trabalho! (Get to Work) Use da sua posição e do seu privilégio para ajudar as causas! Sim, pode ser indo a protestos, mas às vezes significa entrar em contato com as autoridades da sua cidade/Estado, ser voluntário ou fazer doações para organizações que ajudam com as causas, e muitas outras possibilidades!

“O que quer que você faça (como profissão) pode provavelmente ser usado para fazer bem para comunidades marginalizadas.”

Assista ao Filme!

Agora que já aprendemos algumas coisas – e espero ter contribuído para desconstruir um pouco os conceitos que nos são impostos desde pequenos por uma sociedade que prioriza somente uma raça – que tal assistir ao filme?

Pode ser encontrado no Amazon Prime Video, Looke, Google Play e Youtube (atualizado em Novembro/2020). Vou deixar os links abaixo e espero que assistam ao filme!

Amazon Prime Video

Looke

Google Play

Conhecida na Lua como Artemis, meu nome aqui na Terra é Kadine. Considero que sou de Serra Negra – sou ariana com ascendente em escorpião. Interessada em tudo que é artístico, tenho um fraco para pesquisar coisas obscuras! Desbravadora de museus, compro mais livros do que consigo ler, interessadíssima em outros idiomas e culturas, colecionadora de chás e canecas, escritora nas horas vagas e gamer noturna para passar raiva com invader em Dark Souls (e relaxar com Devil May Cry ou Resident Evil).