Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: Juventudes Roubadas – As memórias de Vera Brittain

Como bisneta de ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e que de alguma maneira sempre foi interessada na história, temo dizer que este post é um dos mais especiais para mim. 

Sem mais delongas, falarei desse filme que assisti há um tempo atrás – precisei fazer uma pesquisa de campo para uma história que estava escrevendo – mas me apaixonei no mesmo momento; não apenas por ter dois atores que definitivamente são incríveis, mas pela sensibilidade de uma história baseada em fatos reais.

Fonte da imagem: spirituality and practice

Sobre o Filme

Testament of Youth (Juventudes Roubadas) é um filme britânico de 2014, do gênero drama histórico-biográfico e de guerra, dirigido por James Kent, com roteiro de Juliette Towhidi, baseado no livro de memórias da Primeira Guerra Mundial: Testament of Youth, de Vera Mary Brittain.

O filme teve a atuação de Alicia Vikander como Vera Brittain – jovem mulher independente que abandonou seus estudos na Universidade de Oxford para se tornar enfermeira de guerra. Testament of Youth estreou primeiramente no Reino Unido no Festival de Cinema de Londres em 14 de outubro de 2014 e nos cinemas britânicos em 15 de janeiro de 2015.

Fonte da imagem: intofilm

Enredo

Em 1914, a britânica Vera Brittain era uma jovem que superava os preconceitos contra as mulheres nas profissões da época, tornando-se estudante do Colégio Somerville, em Oxford. Quando a Primeira Guerra Mundial começa, seu irmão Edward (Taron Egerton), seu noivo Roland Leighton (Kit Harington) e seus amigos Victor (Colin Morgan) e Geoffrey (Jonathan Bailey), são enviados para servir na frente de batalha.

Todos nós já estudamos ou ouvimos falar que naquela época era uma honra servir o seu país – para eles, seria uma vergonha verem todos irem e os mesmos ficarem, mesmo que não fosse necessário partir, já que, pela idade, ainda não eram obrigados.

Fonte da imagem: sacurrent

Após o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, começa a Primeira Guerra Mundial. Vera ajuda a convencer seu pai a deixar Edward se juntar ao exército em vez de estudar em Oxford; Roland e Victor também se juntam, e Roland é o primeiro a chegar à Frente Ocidental.

À medida que longas listas de vítimas aparecem nos jornais, Vera, como a mulher independente que era, segue seu caminho depois de muitas angústias, saindo do colégio para se juntar ao Destacamento de Ajuda Voluntária como enfermeira para cuidar dos feridos – sendo eles tanto britânicos quanto alemães – em Londres, Malta e França.

Seus amigos ainda veem a guerra como emocionante – afinal eram apenas crianças conhecendo um mundo novo – mas Roland conta a Vera suas experiências traumáticas da guerra de trincheiras no fronte – surpreendentemente mesma posição em que meu bisavô chegou a ficar na época em que estava na Segunda Guerra.

É então dessa forma que ele pede Vera em casamento – o medo era tanto, que ele sabia que deveria agir logo – e eles se casariam durante sua próxima licença em casa. 

Roland retorna à França, agora com Edward. Roland escreve no final de 1915 que lhe foi concedida licença e está a salvo da frente. Enquanto Vera aguarda sua chegada durante o feriado de Natal, a irmã de Roland, Claire, diz a ela pelo telefone que ele foi morto.

A trama segue com intuito de mostrar o quanto uma guerra não apenas destrói coisas materiais, mas, também, o psicológico e a família daqueles que estiveram presentes – mostrando que, ao fim, tudo termina de uma forma que envolva a morte ou a dor de uma mente perturbada do pós-guerra.

Fonte da imagem: reelworldtheology

Como já comentei antes, como escritora amadora, sempre procuro buscar referências antes de poder falar sobre algo que não esteja no meu cotidiano. Lembro-me de encontrar o filme e me interessar, pois Kit Harington  (Game of Thrones) está nele, como noivo de Vera, Roland. Lembro de me surpreender em como o enredo é delicado e mostra o quão difícil um estado emocional abalado deixa a todos que estão presentes afetados. Sem contar a angústia de não saber de imediato se as pessoas com quem você se importa estão vivas ou mortas.

Por diversas vezes escutei meu bisavô contar suas histórias de guerra, na qual chegou até mesmo ser dado como morto por um bom tempo. Ele contava as diversas vezes que viu amigos e conhecidos morrendo em sua frente, diversas vezes que teve que fazer o mesmo com outras pessoas do lado inimigo e de como suas lembranças o perseguiam pelo resto de sua vida, nunca deixando com que ele esquecesse daqueles dias. 

Sempre me interessei muito pelo tema; sempre me interessei em saber o porquê de tanta desunião e destruição, mas nunca pude entender – pois guerra para mim não tem explicação ou fundamento.

Fonte da imagem: behind their lines

“Violets from Plug Street Wood,

Sweet, I send you oversea.

(It is strange they should be blue,

Blue, when his soaked blood was red,

For they grew around his head:

It is strange they should be blue.)

Violets from Plug Street Wood

Think what they have meant to me–

Life and Hope and Love & You

(And you did not see them grow

Where his mangled body lay

Hiding horror from the day;

Sweetest it was better so.)

Violets from oversea,

To your dear, far, forgetting land

These I send in memory,

Knowing You will understand.”

   — Roland Leighton

(Vídeo do poema acima – infelizmente não encontrei em Português: youtube)

Vera era uma mulher a frente de seu tempo e permaneceu assim até sua morte.

Fonte da imagem: lwlies

Feminista, Pacifista, Enfermeira e Escritora, trouxe ao mundo diversas obras que mostravam seu ponto de vista – tanto como alguém que fez parte da guerra, quanto alguém que foi vitima dela. 

Apesar de perder seu noivo e amigos, sua maior e insuperável dor – que a fez seguir adiante com seu repúdio sobre a guerra – foi seu irmão, que também era seu melhor amigo. Ela nunca conseguiu se recuperar da morte do seu irmão, Edward, na Primeira Guerra Mundial e pediu que as suas cinzas fossem depositadas na campa dele em Asiago, na Itália:

“durante quase 50 anos, o meu coração ficou no cemitério daquela aldeia italiana”.

A filha de Vera cumpriu o seu último desejo em setembro de 1970.

Fonte da imagem: blogs loc

No filme, além de toda essa performance incrível que Alicia nos trouxe na pele de Vera, ela não apenas mostrou a determinação da personagem, que entrou em uma das poucas vagas para estudantes do sexo feminino em Oxford, como também mostrou a não futilidade vinda dela. 

Brittain queria ser escritora e de forma alguma desejava se casar apenas por ser mulher. Ela não aceitava que sua vida fosse depender apenas de um homem – afinal, ela era independente e sua rebeldia valia a pena para si mesma e sua liberdade. 

O primeiro romance de Vera, The Dark Tide (1923) provocou um escândalo, uma vez que fazia uma caricatura dos professores da Universidade de Oxford – especialmente da faculdade de Somerville.

Em 1933, publicou o trabalho que a tornaria famosa: Testament of Youth, esse mesmo que deu origem ao filme de que falamos hoje. Sendo seguido por Testament of Friendship (1940) – um tributo e biografia da sua amiga Winfred Holtby – e Testament of Experience (1957), a continuação da sua própria história de vida entre 1925 e 1950.

Fonte da imagem: filmeinquiry

Vera escrevia os seus romances com sentimento e base nas suas próprias experiências e histórias – não apenas dela, mas também de pessoas que conhecia.

O seu romance Honourable Estate (1936) é autobiográfico e baseia-se na amizade falhada de Vera com a escritora Phyllis Bentley, na sua paixão pelo editor americano George Brett Jr. e na morte do seu irmão em batalha durante a Primeira Guerra Mundial. 

Os diários de Vera também foram publicados em 1981 com o título Chronicle of Youth.

Juventudes Roubadas é em Memória de:

Roland Leighton 1895 – 1915

Poeta e soldado, tornou-se postumamente famoso pelas memórias de sua noiva Vera Brittain, Testament of Youth.

Victor Richardson 1895 – 1917

Soldado britânico durante a Grande Guerra, mais lembrado por ser imortalizado por sua amiga Vera Brittain’s 

Geoffrey Thurlow 1895 – 1917

Soldado britânico, amigo de Vera também citado no livro.

Edward Brittain 1895 – 1918

Foi um oficial do Exército Britânico que foi morto na Primeira Guerra Mundial; ele foi imortalizado por sua irmã Vera Brittain. 

E diversos outros soldados que perderam sua vida nas guerras que nosso mundo já foi capaz de “suportar”. 

Edward Brittain, Roland Leighton and Victor Richardson
 (fonte da imagem: First World War Poetry Digital Archive)

Assim como Juventudes Roubadas nos mostra não apenas os danos causados na própria pessoa como nas pessoas a seu redor, ele nos mostra a importância de termos figuras como Vera Brittain em nossa sociedade. Pessoas que veementemente são contra as guerras e sabem que precisam agir para que coisas dessas magnitude sejam repudiadas. 

A guerra não traz ganhadores,

 a guerra não traz paz, 

a guerra nos traz perdas irreversíveis. 

Trailer do filme

“Parece não haver mais nada no mundo, pois senti que Roland havia levado consigo todo o meu futuro e Edward todo o meu passado.”

— Vera Brittain, juventudes roubadas

Juventudes Roubadas faz jus a essa última semana especial de novembro que nós trazemos aqui no Lune Station para vocês. Dia do Soldado Desconhecido é reconhecido no dia 28 de novembro – isso mesmo, hoje! E nós tiramos o dia para lembrar daqueles que se foram, sem reconhecimento ou com, aqueles que perderam suas vidas em guerras cruéis e principalmente aqueles que perderam pessoas para essas guerras. 

Nós da Irmandade da Lua dedicamos esse post a essas pessoas; dedicamos nossos reconhecimentos e sinceros respeitos a todos aqueles que foram vítimas, que perderam suas vidas cedo, que foram prisioneiros de guerra, aos que sobreviveram e principalmente àqueles que perderam seus familiares. 

It’s Lay time!!! Eu sou a Laysa, mais conhecida neste espaço como Selene. Nascida no interior de São Paulo e criada em diversos lugares. Aquariana – sim, lidem com isso! – amante de tudo ligado à cultura geral, história, idiomas, livros, playlists aleatórias, escrever e fotografias. E devo deixar claro que o cinema é a minha paixão.