Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: O Advogado do Diabo Como (Melhor) Metáfora Sobre Justiça

Com a semana sobre Justiça aqui no Lune Station, resolvi falar sobre o filme que acho que mais representa o Direito: O Advogado do Diabo.

Eu, Artemis, sou advogada – sim, estudei os cinco anos, tenho diploma, tirei OAB, trabalho no meio e etc. – e posso dizer com convicção que esse filme representa a profissão de uma maneira horrivelmente real.

E isso tudo com os elementos claramente sobrenaturais que montam o filme.

Apesar de representar bem a profissão – na minha opinião – o filme também representa claramente como o sistema Judiciário pode ser. Afinal, a Justiça é de fato feita nos tribunais ou ganha quem possuí melhor poder de persuasão?

Assisti a esse filme antes mesmo de entrar na faculdade e, conforme os anos se passaram, vi que ele se mostrava cada vez mais real. No meio Jurídico, é muito fácil vender seus valores morais para quem der a maior quantia de dinheiro.

Hoje, nosso trem toma partida para Nova York, onde vamos acompanhar a carreira de um jovem advogado que, aos poucos, percebe que uma oportunidade que pareceu cair dos céus não é tão divina quanto parece.

Advogado do Diabo – Sobre o Filme

Poster do filme (fonte da imagem: wikipedia)

Lançado em 1997, o filme é uma adaptação do livro de mesmo nome pelo autor Andrew Neiderman, sendo dirigido por Taylor Hackford e considerado uma mistura de terror, drama e suspense (nada de novo sob os tetos de escritórios/departamentos Jurídicos – desculpem a piada). O elenco conta com grandes nomes, como Keanu Reeves, Al Pacino, Charlize Theron e Connie Nielsen nos papéis principais.

Acompanhando Kevin Lomax (Keanu Reeves), vemos a história de um jovem advogado da Flórida que, por ser extremamente talentoso e eficiente em seu trabalho, recebe a proposta de trabalhar em uma grande firma em Nova York, cujo dono é John Milton (Al Pacino) – mudando-se para lá com sua esposa, Mary Ann (Charlize Theron).

Por conta do estilo de vida de alta sociedade que ambos começam a ter por conta do novo trabalho – e alto salário – de Kevin, o advogado quer cada vez mais provar que consegue ser excelente em sua profissão.

Essa avareza da parte de Kevin, e também vaidade ao receber tantos elogios e prosperidade por conta de seu trabalho, faz com que ele se torne cego acerca das motivações e culpabilidade de seus clientes. Kevin, conforme o filme mostra, não está interessado em um julgamento justo para seus clientes – ele está interessado em “ganhar” o caso, ou seja, fazer com que seus clientes saiam como inocentes, mesmo se fossem culpados.

O primeiro exemplo que temos disso já é logo no início do filme: Kevin está defendendo um professor acusado de abusar sexualmente de uma de suas alunas menores de idade e, a fim de ganhar o caso, o advogado humilha a garota, desestabilizando-a em frente ao tribunal para que o testemunho dela não fosse considerado.

Cena do interrogatório da garota (fonte da imagem: yarn)

Sim, Kevin ganha o caso. Mas sabe que seu cliente é culpado, além de humilhar uma vítima que já passou por humilhação suficiente (já vimos algo parecido recentemente aqui no Brasil, não? Inclusive com um caso de estupro, no qual a vítima foi completamente humilhada e tratada de maneira desumana pelo advogado da defesa).

Já estou respirando fundo porque isso aqui vai até me dar raiva de falar, mas seguimos.

Às custas de uma menina inocente, provavelmente acabando com qualquer futuro que ela pudesse ter, Kevin ganha sua grande oportunidade de ir para Nova York com sua esposa a fim de trabalhar para Milton.

Os próximos casos de Kevin seguem a mesma moralidade dúbia – seriam seus clientes culpados de seus crimes ou não? Kevin estaria interessado nisso? Ou estaria mais interessado em defendê-los a todo preço, abandonando a própria moral e ética por fama e dinheiro?

Considerando que vivemos em uma sociedade capitalista com uma cultura cada vez mais narcisista voltada ao culto do próprio ego, não podemos falar que a resposta para as questões acima são fáceis. Ou melhor, elas são fáceis, mas tomá-las na prática é muito mais complicado do que em situações hipotéticas.

Kevin e Milton no escritório em Nova York (fonte da imagem: blogspot)

E é assim que o paraíso de Kevin começa a virar de cabeça para baixo – sua esposa parece ser a única que nota os acontecimentos estranhos que os rodeiam conforme Kevin vai avançando em sua cerreira, cego para a moral e com foco somente no ganho pessoal. E as consequências começam a ficar cada vez mais sérias e terríveis para o casal, não somente para ele.

Entre acontecimentos sobrenaturais e momentos de realidade irrefutável, começa-se a questionar a sanidade dos personagens – estariam todos em seu perfeito estado mental? Ele está certo? Ela está louca? Ou ela realmente tem razão e Kevin está em perigo? Quem é Milton afinal? Agir somente com avareza e fechar os olhos para a conduta ética numa profissão como essa é correto?

Até onde alguém venderia a própria alma somente para ter o que quer?

O Advogado do Diabo e a Justiça no Mundo Real

O filme traz questionamentos e situações muito mais complexas que se desenrolam em uma atmosfera de tensão e terror – com um desfecho com direito ao diabo, anticristo, mortes sangrentas e absolvição.

Vale a pena checar as grandes atuações, principalmente de Al Pacino e Keanu Reeves (sou uma fã incurável do Keanu, já vou avisando). O enredo é intrincado e precisa de atenção – porém, se você perder alguma informação aqui ou ali, vai conseguir entender o final.

Mas agora você deve estar se questionando: Artemis, se o filme tem tantas coisas sobrenaturais – e até um enredo de anticristo! – como você acha que pode representar tão bem o Direito?

Estou feliz que você perguntou.

Minha opinião é de acordo com as experiências que vivi até agora, no tanto de contato que já tive com o mundo Jurídico e as coisas que já presenciei. Sinceramente, espero que minha opinião mude no futuro, conforme eu for amadurecendo e descobrindo novas realidades. Até lá, entretanto, minha opinião é a que vou colocar abaixo.

É muito fácil vender a própria moralidade e ética quando se trabalha com Direito – principalmente como advogado.

Note que falei “Direito”: ou seja, Juízes, Procuradores, Promotores, Advogados Gerais, Assistentes, Estagiários… Acredito que todos estão inclusos, pois o sistema que está instituído continua funcionando da mesma maneira, sendo presenciado e passado por todos que nele trabalham.

fonte da imagem: gnchambers.co.uk

É um sistema omisso ou abertamente corrupto, com uma Justiça que certamente não é cega. Quando dizemos que a Justiça não enxerga, significa que, teoricamente, não há distinção entre classes sociais, poder aquisitivo, cor de pele, gênero, sexualidade e etc. – porém a realidade é completamente outra.

No âmbito Jurídico, por causa da natureza dos problemas que são tratados no meio, fica rotineiro precificar a própria ética: você defenderia um pedófilo por cinco mil reais? E por quinhentos mil? E se te oferecessem quase um milhão?

Esse é o ponto de Advogado do Diabo que acho tão cruelmente real.

O personagem de Keanu Reeves não é só um personagem: há milhares de advogados como ele, que não se importam em efetivamente trazer Justiça, mas sim ganhar dinheiro – e muito, diga-se de passagem – a qualquer custo.

Muitas pessoas falam que esse meu argumento não se sustenta, pois todos tem o direito de se defender – e eu concordo plenamente: todos tem o direito de se defender. Assim como o papel do advogado é assegurar que seu cliente tenha um julgamento justo.

Então, seria justo o cliente que o advogado sabe ser culpado sair impune em seu julgamento?

Aí é o que complica. Você irá me dizer “mas Artemis, ninguém contrata um advogado para ser preso”, e sim, você tem razão. Ninguém contrata um advogado para ser preso. Mas ninguém contrata um advogado para assegurar que o próprio julgamento seja justo pelo crime que cometeu: advogados são contratados para que saiam completamente impunes.

Isso é a Justiça que tanto defendemos?

Cena do filme com Kevin e seu primeiro cliente (fonte da imagem: imgur)

Lembrando que, quanto mais dinheiro a pessoa tiver para gastar, melhor será sua defesa e maior a probabilidade de êxito. É por isso que vemos tão poucas pessoas de classe alta e com boa educação presas por seus crimes: não porque elas não os cometem, mas porque elas têm dinheiro para pagar pela própria absolvição.

É como se a sentença fosse vendida e somente aqueles que possuem os meios se livram de seus crimes – de novo, quase como as famosas indulgências da Igreja Católica na Idade Média.

Como exemplo, vou pegar um caso super recente e muito comentado na mídia: o caso Mariana Ferrer.

Acho que todos que possuem redes sociais e acompanham notícias ficaram sabendo da audiência e sentença absurdas em um caso tão sensível. Um estupro é algo que deixa a vítima traumatizada e fragilizada – podendo até ser tratado em confidencialidade para não deixá-la ainda mais em evidência.

(afinal, é por motivos como vergonha, negação, medo e muitos outros que diversas vítimas de estupro se mantém caladas – homens ou, em sua maioria, mulheres)

No caso da Mariana, a audiência foi um verdadeiro show de horrores. O advogado do acusado, para fortalecer sua defesa e ganhar o caso, não usou da imagem do seu cliente para construir seus argumentos: preferiu humilhar e acusar a vítima, como se ela fosse culpada pelo próprio crime.

Eu tinha uma professora na escola que usava uma boa técnica para nos colocar no lugar do outro: se fosse sua filha, você gostaria que ela fosse tratada dessa maneira?

O pior, é que, conforme reportagem da BBC sobre o tema, advogados relatam que esse tipo de tratativa com vítimas de estupro é comum.

“Para Juliana Sá de Miranda, sócia da área penal do Machado Meyer Advogados, o ataque à vítima tem sido corriqueiro em casos de violência sexual no Brasil. “É comum a tentativa de desconstrução da imagem da vítima nos crimes de estupro e assédio sexual. Fala-se de roupa, do comportamento da vítima, na tentativa de convencer o juiz de que ela consentiu com o ato. A vítima muitas vezes acaba tendo que se defender pois passa a se sentir acusada e não mais uma vítima”, diz Juliana.”

(…)

“Infelizmente é comum se desmerecer a vítima como tese de defesa em crimes sexuais”, afirma uma juíza de direito criminal do Estado de SP, que atua há quase 30 anos na área e foi ouvida pela BBC News Brasil. “É comum se tentar inverter o ônus da prova, mas ao nível que chegou esse caso eu nunca presenciei”, diz a juíza.”

– Trechos da reportagem da BBC – Caso Mariana Ferrer: Desmerecer vítima é comum em casos de estupro, relatam advogados

Não há nada de comum nisso. Não há nada de justo. O que houve é uma banalização de um comportamento baseado em precificação de ética, a fim de sustentar a avareza e narcisismo da vitória a todo custo – não importando mais o certo ou o errado; as consequências para as vítimas ou acusados: o que importa é se o cliente que pagou pela própria absolvição a tenha e saia completamente impune.

fonte da imagem: rmit.edu.au

Ao meu ver, esse não é o papel de um advogado. Não é o papel de um juiz. Não é o papel da Justiça.

Como o Direito trata de muitos temas complexos – como o caso da Mariana Ferrer – também é fácil exigir altos preços para a defesa. Afinal, qualquer um que irá abandonar os próprios valores morais para defender o seu cliente, somente o fará se a remuneração for proporcionalmente boa. É uma comercialização de uma área que não deveria existir.

Sou a favor de julgamentos justos. Que os acusados tenham assegurados seus direitos humanos e direito de defesa. Mas não a favor de desumanização de vítimas e belos argumentos floreados para que um criminoso saia impune por seus atos.

É assim que acho que O Advogado do Diabo é um dos filmes que melhor representa a profissão e o mundo daqueles que lidam com o Direito. Apesar do enredo sobrenatural, é uma ótima metáfora – às vezes não tão metafórica assim – sobre como é fácil vender a própria alma em troca de fama e fortuna.

“Vaidade. Definitivamente meu pecado favorito.” (fonte do GIF: usercontent.one)

Conhecida na Lua como Artemis, meu nome aqui na Terra é Kadine. Considero que sou de Serra Negra – sou ariana com ascendente em escorpião. Interessada em tudo que é artístico, tenho um fraco para pesquisar coisas obscuras! Desbravadora de museus, compro mais livros do que consigo ler, interessadíssima em outros idiomas e culturas, colecionadora de chás e canecas, escritora nas horas vagas e gamer noturna para passar raiva com invader em Dark Souls (e relaxar com Devil May Cry ou Resident Evil).