Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: POSE, Ball Culture e a Luta Contra AIDS

Quando pensamos no calendário de conteúdo do mês de Dezembro, percebemos que existem muitas datas comemorativas que poderíamos usar para os temas.

Dezembro começa com uma luta super importante – hoje, primeiro de Dezembro, é comemorado o dia de luta contra AIDS e, além de só mais um dia de conscientização de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis, o dia de hoje é para combate ao preconceito contra as pessoas soropositivas.

Pôster sobre o dia mundial de luta contra AIDS (fonte da imagem: calendarr)

O preconceito com tudo é algo nocivo à comunidade de pessoas a quem o ataque é destinado – e, no caso da AIDS, afeta toda a sociedade. Por conta disso, mais pessoas por medo de como serão tratados dali em diante, falta de coragem e de apoio, deixam de fazer os testes e o vírus acaba por se espalhar. Outras, já diagnosticadas, deixam de fazer os tratamentos necessários, que poderiam prolongar e dar uma melhor qualidade de vida.  

Então, dia primeiro de Dezembro é o dia da prevenção, de informações sobre o tratamento e de acabar com preconceitos.

Para o post de hoje, eu, Hekate, trago até as terras lunares uma série que está no top cinco das minhas séries favoritas da vida e que mostra como o apoio, a informação, a prevenção e os tratamentos são importantes para toda a sociedade – e principalmente para os portadores. Se acomodem em seus lugares: o trem até POSE está prestes a sair.

Os Desenvolvedores

Roteiro assinado por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals – e, claro, de toda a vivência da sociedade e em especial da comunidade LGBTQIA+ dos anos 80 – POSE estreou em 3 de junho de 2018 pelo canal FX e em 28 de setembro de 2019 no catálogo da Netflix. 

Ryan Murphy (fonte da imagem: wikipedia)

Só de ler o nome de Ryan Murphy assinando como criador, a gente já imagina o quão boa a trama deve ser. O escritor, roteirista, produtor e diretor Norte Americano, traz em sua bagagem produções como Estética (Nip/Tuck) 2003 – 2010, Glee 2009 – 2015, American Horror Story 2011 – Atualmente, e o mais recente sucesso da Netflix, Ratched, que está em produção atualmente.

É conhecido por seus roteiros que dão espaço e abordam temas que colocam as minorias e suas lutas, suas dores e suas causas em destaque. Vencedor de cinco globos de ouro e sete Emmys, é abertamente gay e um dos produtores e criadores mais bem sucedidos dos Estados Unidos – e com POSE não foi diferente.

Brad Falchuk (fonte da imagem: wikipedia)

Parceiros de trabalho desde 2003 – quando trabalharam juntos na produção e direção de EstéticaRyan Murphy e Brad Falchuk produziram e digitaram juntos também outros projetos – muitos dos listados na carreira de Murphy. 

Claro que ter os nomes de Murphy e Falchuk enchem os olhos de qualquer espectador que conheça o trabalho da dupla – e sim, não podemos deixar de apontar como a participação dos dois foi importante para a série. Mas os créditos mais importantes têm de ser dados a Steven Canals.

Roteirista e produtor americano, escreveu POSE quando ainda estava na faculdade e a princípio somente para si. Tinha se encantado há muito tempo com a cultura dos bailes e, então, com a ajuda de Murphy e Falchuk, conseguiu com que a narrativa ficasse mais fluída, acessível e em um tom universal – na qual todas as pessoas, não somente as da comunidade LGBTQIA+ ou, mais especificamente, frequentadoras e participantes dos bailes, conseguissem entender e se identificar com a proposta inicial.

Steven Canals (fonte da imagem: wikipedia)

Mas Afinal, Do Que Se Trata POSE?

Sinopse: “Em 1987 em Nova York, Blanca, uma frequentadora de bailes LGBTQIA+, acolhe como filhos um dançarino talentoso e uma trabalhadora do sexo apaixonada por um cliente yuppie.”

(O significado de Yuppies é a abreviação de Young Urban Professional, que traduzindo-se ao português, significaJovem Profissional Urbano)

Trailer da série

A sinopse da série já nos deixa curiosos com o que podemos encontrar ao decorrer dos capítulos; mas, além disso, enquanto conhecemos, nos conectamos e nos apaixonamos por cada personagem e história, tudo fica mais visceral – e, ao mesmo tempo que queremos assistir mais e saber mais, queremos digerir cada fragmento de forma lenta, não querendo que o final chegue nunca. 

A série acompanha a vida de Blanca, que é uma mulher transgênero e sempre teve o sonho de ter sua casa e acolher seus “filhos” para competir e participar dos bailes LGBTQIA+ – que, nos anos 80, eram os lugares e um dos poucos momentos em que a comunidade encontrava refúgio e acolhimento.

Um lugar e um momento seguros, nos quais essas pessoas que viviam à margem da sociedade conseguiam, ao menos por uma noite, se sentirem bem consigo mesmos: mostrarem sem inibição seu verdadeiro eu.

Da esquerda para a direita: Angel, Damon e Blanca. (fonte da imagem: netflix)

Blanca descobre ser portadora do vírus HIV – e, em meio a uma sociedade que não se importava com a epidemia de AIDS, ela decide fazer diferente com a sua vida e de outros jovens, que, assim como ela, um dia foram expulsos de seus lares, apenas por serem quem eram.

A série aborda diversos assuntos importantes e latentes dos anos 80 para toda a comunidade LGBTQIA+, e um desses assuntos é o surto de AIDSque, claro, não afetava somente a comunidade, como a sociedade em um geral – mas como ser LGBTQIA+ era padecer à margem da sociedade, o vírus os afetava mais feroz e drasticamente.

O que mais me deixou surpresa nesse enredo, é que a abordagem da doença não é algo que agregue ainda mais preconceito e estigma para a comunidade.

A série aborda o tema como o dia primeiro de dezembro vem tentando todos os anos fazer. Mostra de forma delicada e humana a fase mais difícil, que foi o boom entre o meio dos anos 80 e o começo dos anos 90. E o peso, ainda que dolorido, não é de drama e desilusão – pelo contrário: mostra de forma positiva as lutas pela prevenção, o poder do apoio e a coragem do diagnóstico.

Ser da comunidade LGBTQIA+ e soropositivo, naquela época, era como se assinassem uma sentença de morte e muitas vezes de solidão e abandono, por puro preconceito.

Assistindo à POSE, eu, na minha humilde concepção, entendi como o apoio e passar por esse momento sem a carga do preconceito em cima, faz com que a qualidade de vida, bem como a coragem para seguir um tratamento e assumir aquela nova condição, aumentasse bastante.

E hoje, com tantas tecnologias e tratamentos mais eficazes, manter a mente aberta e a prevenção é primordial para que a propagação do vírus diminua cada vez mais.

Blanca e Pray, cena da primeira temporada (fonte da imagem: draglicious)

A trama aborda mais coisas além do vírus, como a prostituição, em sua grande maioria entre as pessoas transexuais e travestis, para conseguirem se sustentar – agora já é difícil a colocação de homens e mulheres trans e travestis no mercado de trabalho, imagina no auge de uma sociedade majoritariamente LGBTfóbica dos anos 80!

Aborda, também, o quanto a comunidade precisava – e ainda precisa – ser unida para sua própria sobrevivência. Quando muitos foram agredidos, maltratados e expulsos por quem deveria lhe apoiar e amar acima de tudo – suas famílias – de suas próprias casas.

Também fala das mais diversas sexualidades e as cirurgias de mudança de sexo, os procedimentos feitos muitas vezes de formas clandestinas por mulheres transexuais.

Angel, no meio de um programa (fonte da imagem: blogspot)

O tema central é a Cultura Ballroom (Ball Culture) não muito conhecidos aqui no Brasil – mas que foram de grande fama nos EUA nos anos 80, início dos anos 90. Os bailes na comunidade são datados dos anos 60, mas foi nos anos 80 que ganhou força e grande popularidade. Surgiu nas periferias norte americanas, pela comunidade, como uma válvula de escape, onde conseguiam ser eles mesmos.

Inspirada também no documentário Paris is Burning, de 1990, POSE teve Hector Xtravaganzaícone da ball culture dos anos 80 – dando consultoria aos roteiristas; que, como não viveram diretamente a cultura, quiseram ter a propriedade de uma voz ativa no movimento, para que o enredo fosse fiel e representasse quem eles queriam representar.

Aclamada pela crítica – e com razão – POSE, é com certeza uma das minhas séries favoritas e você não vai se arrepender nenhum minuto de começá-la.

A Voz a Quem Ela Pertence

Outra coisa que eu achei magnífica, foi o fato de que não só o enredo relata a vivência das minorias da comunidade LGBTQIA+, mas os atores e personalidades que deram vida a esses personagens tão marcantes, são parte da comunidademulheres transexuais, homens gays, pessoas bisexuais e o elenco também é predominantemente negro e latino: apenas três atores brancos fizeram parte da equipe central.

Elenco de POSE na festa de lançamento da segunda temporada (fonte da imagem: dragliciouz)

Não só no elenco, mas na produção também: entre os cinco roteiristas, contando com os já citados Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steve Canals, todos homens cis, dois deles membros da comunidade LGBTQIA+, contaram com a presença de duas mulheres transexuais: Janet Mock  e Our Lady J.

Mais um fato que me deixou ainda mais feliz com toda essa experiência, foi saber que Billy Porter, que interpreta Pray Tello figurinista e amigo pessoal de Blanca na série – se tornou o primeiro homem assumidamente gay a ganhar o Emmy, na categoria Melhor Ator em série dramática, por seu trabalho na série POSE. Um marco, não só para os fãs da produção de Billy, mas para toda a comunidade.

Billy Porter e seu Emmy (fonte da imagem: cmjornal)

Importante dar nome às atrizes que deram vida às personagens de mais destaque na trama – todas elas transexuais, ocupando o lugar que as pertencem: que é à frente das câmeras, mostrando todo seu talento e representatividade.

MJ Rodriguez, que interpreta Blanca, a personagem central, de onde as outras histórias e vivências estão conectadas.

Indya Moore, no papel de Angel, uma das filhas de Blanca, que tentava a todo custo ser feliz e tratada como a mulher que ela era, mas que socialmente não era tratada só por ser uma mulher trans.

Dominique Jackson como Elektra, mãe da casa ‘House of Abundance’, que era a casa a qual Blanca fazia parte antes de criar sua própria casa: uma personagem com um ponto muito importante, dando atenção para a redesignação sexual: seu sonho em realizar o procedimento e. como muitos homens – até hoje, infelizmente – só vêem a mulher trans como objeto sexual e de fantasias.

Hailie Sahar dando vida a Lulu, uma das filhas de Elektra, que depois de alguns acontecimentos se junta à Candy, vivida por Angélica Ross, e criam sua própria casa, sendo co-mães e participando também nos bailes.

Destaque a essas mulheres, pois – assim como qualquer ator ou atriz da comunidade LGBTQIA+ – tê-las em papel de protagonismo dá esperança e incentivo a outros homens e mulheres trans a lutarem por seus sonhos e alcançar todos os lugares que queiram ocupar como seres humanos na sociedade atual.

Fique Por Dentro:

Quer saber mais sobre a cultura do Cultura Ballroom? Assista ao documentário que inspirou a série!

Documentário “Paris is Burning”, que inspirou a série POSE

E, é claro, assistam a POSE, que tem sua primeira temporada disponível na Netflix!

A segunda temporada ainda não chegou ao Brasil, mas uma notícia boa para os fãs é que uma terceira temporada foi confirmada pela FX, que é a emissora à qual a série pertence!

Oi, eu sou a Gabriela, mais conhecida por aqui como Hekate. Nascida e criada em São Paulo, duplamente escorpiana, apaixonada por tudo ligado à cultura pop e, às vezes, não tão pop assim. Comédias românticas, livros do Sidney Sheldon, playlists e músicos undergrounds, kpop e o Corinthians são minhas maiores paixões. Aspirante a chef de cozinha e escritora, amante de chás e de abraços.