Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: Preciosa: Uma História de Esperança, Determinação e Força

Para o mês das crianças – incluindo proteção à criança e o adolescente –, professores e até mesmo do terror, eu Hekate, acredito que o filme Precious (Preciosa – Uma História de Esperança; tradução do título no Brasil) se encaixa perfeitamente em todos. 

Esse post pode conter gatilhos por se tratar de um assunto sobre abuso sexual e psicológico – aos mais sensíveis, tomem cuidado! 

(PRECIOSA (Precious) – Trailer HD Legendado)

O filme, que é um roteiro adaptado do livro Push (1996) de Sapphire, conta a história de uma menina – uma criança de apenas 16 anos, Afro-Americana, com obesidade, pobre e analfabeta – que sofre sobre abuso psicológico não só da sociedade – que ataca sua forma, cor e condição financeira – como de sua própria família – sua mãe, que vive em guerra com ela por estar grávida pela segunda vez de seu pai, que além dos abusos mentais, ainda abusa física e sexualmente dela.

Sabemos que muitas crianças e adolescente pelo mundo todo sofrem com esse tipo de situação. Quantos relatos, documentários e registros públicos e judiciais contam histórias similares às de Claireece “Preciosa” Jones, que é a personagem principal dessa trama?

Poster do filme Precious. (fonte da imagem: Wikipédia)

Nesse enredo que trago até vocês hoje – no meu dia da semana de proteção à criança aqui do nosso blog – a salvação, ou a ajuda, a proteção à essa criança veio por meio do ensino – dentro de uma sala de aula, com uma pessoa que não desistiu dela e a ensinou a não desistir e garantir um futuro diferente para os filhos dela.

“Eu sou Precious ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ

Meu neném é preto

Eu sou mulher

Sou preta

Quero uma casa pra morar”

O tema pode ser gatilho para algumas pessoas e é um assunto pesado, mas é algo necessário. Foi necessário  para mim como ser humano – com uma vida privilegiada, uma família bem estruturada – enxergar além da minha bolha. Isso fez com que eu quisesse mudar minhas ações como ser humano e talvez, conseguir mudar a vida de crianças, adolescentes e mulheres com a minha voz – quando muitas vezes, elas são silenciadas ou não têm força ou coragem de usar. 

PUSH (1996) – Preciosa (2010)

Capa do livro Push, publicado em 1996. (fonte da imagem: Wikimedia)

O filme é baseado no livro Push, da autora Sapphire, publicado em 11 de junho de 1996, pela editora Alfred A. Knopf. Li algumas edições e anos depois – o livro que eu li foi a 8º edição, traduzida ao Brasil pela editora Record, por Alves Calado. Na versão brasileira para Push, a obra chega com nome e cartaz do longa, no ano de 2010!

A adaptação de Push para os cinemas aconteceu em 2009 e chegou às terras brasileiras em 2010

Antes de irmos mais a fundo sobre essa história, quero lhes apresentar Ramona Lofton, nascida em 4 de agosto de 1950, Fort Ord National Monument, California, EUA – uma escritora, poetisa e artista performática norte americana, que também é conhecida como Sapphire: a autora que trabalha de forma maravilhosa e dolorida esse romance. 

Sapphire publicou também um livro que é uma coleção de poemas, chamado: Meditations on the Rainbow no ano de 1987. Antes disso, mudou-se da Califórnia para Nova York em 1977. Foi quando se envolveu profundamente com a poesia. 

Sapphire, autora de Push. (fonte da imagem: Facebook)

Morou entre os anos de 1983 a 1993 no Harlem (um bairro de Manhattan, na cidade de Nova York conhecido por clubes de jazz, instituições de soul food e herança afro-americana), onde ensinou adolescentes e adultos a ler e escrever

Tomou como inspiração para a escrita de Push sua experiência como atendente em um abrigo para mulheres no bairro. O livro foi aclamado pela crítica e ficou em primeiro lugar nas listas de mais vendido dos EUA, incluindo a do New York Times – foi traduzido para mais de 11 idiomas, dentre eles o português.  

A Adaptação Para o Cinema

Cena do filme – na imagem, temos Preciosa (Gabourey Sidibe), sua mãe (Mo’Nique) e sua filha mais velha (fonte da imagem: pghcitypaper)

Treze anos depois do lançamento do romance, em uma produção de Oprah Winfrey com direção de Lee Daniels, Push virou Precious – e chega com a história de Claireece, que, aos 16 anos, descobre que está grávida pela segunda vez de seu próprio pai. Ele já tinha a engravidado quando tinha apenas 12 anos.

Essa segunda gravidez fez com que a direção de seu colégio atual a expulsasse de lá, orientando-a à uma associação de ensino para as jovens e mulheres nas condições às quais Preciosa se encontrava. 

Capa do livro Preciosa de 2010 (crédito da imagem: Acervo pessoal de Hekate)

O abuso sexual por parte de seu próprio genitor não era novidade na vida da jovem, e nem tinha começado aos 12 anos – quando engravidou pela primeira vez. Os abusos, com consciência de sua própria mãe, começaram quando ela tinha apenas 3 anos de idade. Sua mãe, nada fez para impedir, amava seu marido e momento nenhum queria contrariá-lo, o que – em minha concepção –  não justifica tal ato. A mãe de Precious também sofria de abusos, psicológicos e sociais, para adotar tal postura. 

Com os anos se passando e seu marido intensificando cada vez mais o desejo em sua própria filha, a mãe da menina começa a tratar Claireece de maneira mais desumana ainda. Ordenando sempre que ela fizesse os serviços domésticos, cozinhasse todas as suas refeições, e não deixando que se alimentasse da maneira correta – chegando a deixá-la sem comer. Mesmo que a própria mulher não trabalhasse ou fizesse algo a mais que só ver TV durante o dia todo. 

Ações que deixam nossa personagem principal acreditando por muito tempo que a culpa por despertar o desejo sexual – doentio – do próprio pai fosse dela, e que ela não seria mais amada ou desejada por ninguém, além dele – por ser uma pessoa obesa, negra e analfabeta. 

Cena do filme preciosa (fonte da imagem: screendaily)

Precious sempre quis um futuro diferente do seu para sua filha – que já tinha 4 anos, quando descobriu a segunda gravidez, e nascera com síndrome de down. Gostava de ter um lugar para ir e aprender, mesmo que nesse ambiente fosse constantemente humilhada e vítima de bullying e árdua exclusão social. Ficava feliz quando elogiavam suas tarefas e avanços. 

Quando mudou sua rotina de aprendizagem, conheceu uma pessoa que foi de grande importância em sua vida e na busca de quem e como ela queria ser dali em diante. Para mim, esse é o momento mais “mágico” de todo o enredo, seja ele no livro ou no filme, quando ela encontra essa pessoa – com um papel tão importante na vida das pessoas: são os educadores, os instrutores maiores, os professores

Sra. Rain e o poder da educação, o poder da empatia e do acolhimento! Não sei vocês, mas eu já tive na minha vida alguém, fora do meu ciclo familiar, que me inspirou e me fez querer ser o meu melhor – Profº João Baptista, essa é pro senhor.

Não só um na real, mas com certeza meu professor de história da sétima série do ensino fundamental me instigou a ser um alguém diferente de quem eu estava sendo até aquele momento, fez enxergar que mesmo estudando em uma escola pública, de um bairro periférico, eu podia – não, eu DEVIA – ser o meu melhor, para não acabar como muitos outros que sentaram naquelas carteiras, e, se não tiveram as vidas engolidas pelo crime, viviam de forma medíocre e sem aspiração de um futuro brilhante. 

Preciosa e a professora – cena do filme Preciosa (fonte da imagem: encenasaudemental)

“Por favor, não me ame! O amor nunca fez nada por mim! O amor machuca, me faz sentir sem valor”

Voltando o foco ao filme – foi essa – assim como foi e é para muitas pessoas – a base para uma mudança do mundo que ela vivia e que ela queria proporcionar para seus filhos. Dali em diante, Preciosa começa uma saga da opressão que vivia durante a sua vida toda, para a autodeterminação.

Blue Rainuma jovem professora, radical e batalhadora – é a figura que proporciona a possibilidade de Preciosa recuperar a sua voz – que por tanto tempo ela nem sabia que tinha – e a dignidade que lhe foi arrancada de maneira tão bruta e prematura, por quem deveria amar e proteger, apresentando um mundo novo no qual poderá finalmente se expressar e entender os próprios sentimentos de uma maneira que nunca antes havia sequer imaginado. 

Para mim, o final de toda essa trama é algo de certa forma reconfortante – mas só de certa forma. Preciosa consegue se libertar do lar e de sua mãe, mas descobre – com a morte de seu pai por conta da AIDS – que também era soropositiva, e ainda tinha duas crianças em sua custódia para criar.

Eu gosto de pensar que sim, mesmo com tudo aquilo, ela conseguiu respirar pela primeira vez na vida, de maneira decente, e não foi um momento sufocante – ela encontrou a luz no fim do túnel. E talvez o que me deixa mais abalada, é que sim, mesmo com tudo, Claireece, em meio a tantas crianças e adolescentes com lares abusivos, é a exceção, e não a regra.

Cena em que a assistente social confronta a mãe de Preciosa sobre os abusos – cenas fortes

Claro que os movimentos em prol à criança e ao adolescentes que temos por aí – tanto quanto podemos criar – com nossas vozes, para que essas pessoas tenham forças para usar as delas, já ajudam bastante no cenário atual. Então dica da tia Hekate: Usem seus locais de fala, seus privilégios, seus lares estruturados, para ajudar o próximo – a próxima geração, os que serão o futuro de um mundo que queremos, com a maior certeza que seja melhor, sempre. 

Preciosa e seus filhos (fonte da imagem: encenasaudemental)

Conheça e Divulgue os Canais de Proteção

Crianças da campanha do UNICEF de proteção à criança durante a pandemia (fonte da imagem: UNICEF)

Citei muitas vezes nesse texto sobre usar nossas vozes e aqui vão algumas dicas que eu peguei com nosso amigo UNICEF para conseguirmos usar essa ferramenta para salvar vidas e mudar mundos. 

Se você conhece uma criança ou adolescente que sofre algum tipo de abuso doméstico – seja um parente, próximo ou não, um vizinho, conhecido, aluno, em seu ambiente de trabalho ou onde for – não pense duas vezes! O melhor para essa criança nunca vai ser permanecer nesse ambiente, que só vai fazer mal. Então vou citar alguns canais aos quais podemos entrar em contato para ajudar a vida desse pequeno ser humano:

O primeiro é o conselho tutelar de sua cidade, estado, condado etc: Para casos de violência física ou sexual – inclusive por familiares – casos de ameaça ou humilhação por agentes públicos, casos de atendimento médico negado – é necessário chamar o Conselho Tutelar. Verifique o contato do Conselho Tutelar da sua cidade;

O segundo é o DISQUE 100: Vítimas ou testemunhas de violações de direitos de crianças e adolescentes – como violência física ou sexual – podem denunciar anonimamente pelo Disque 100;

O terceiro é o DISQUE 180: Em casos de violência contra mulheres e meninas, seja violência psicológica, física, sexual causada por pais, irmãos, filhos ou qualquer pessoa. O serviço é gratuito e anônimo;

O quarto, é a polícia: Quando estiver presenciando algum ato de violência, acione a Polícia Militar por meio do número 190. Também é possível acionar as Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher e as de Proteção à Criança e ao Adolescente da sua cidade;

E o quinto é o Safernet Brasil: A rede recebe denúncias de cyberbullying e crimes realizados em ambiente online. Para denunciar, acesse https://new.safernet.org.br/

Existem outros órgãos de apoio à criança, adolescentes e suas famílias, que eu vou citar aqui abaixo – mas todo esse material pode ser acessado também, pelo link: https://www.unicef.org/brazil/cinco-dicas-para-proteger-criancas-e-adolescentes-da-violencia-em-tempos-de-coronavirus#servicos-protecao

Centro de Valorização da Vida: Ligue 188 ou acesse www.cvv.org.br 

  • Defensoria Pública: Procure os contatos no site da Defensoria de seu Estado;
  • Ministério Público: Encontre os contatos no site do MP de seu Estado;
  • Ouvidorias: Cada órgão tem uma ouvidoria própria para receber sugestões, elogios e reclamações que não foram resolvidas de outra forma. Caso tenha um problema com algum órgão, busque o contato da ouvidoria do mesmo;
  • Creas: Centro de Referência Especializada em Assistência Social. Cada município possui diversos Creas, encontre o mais perto de sua casa e entre em contato.

E lembrem-se: ao menor sinal de lar abusivo, violência física, sexual, ou psicológica, situação de risco, privação ou qualquer ou indício de que a criança ou o adolescente está tendo seus direitos violados, defenda-os, denuncie, salve aquela existência. 

Bônus: Assista Preciosa

Preciosa recebeu inúmeros prêmios e indicações, com um total de 113 vitórias e 98 nomeações. Dentre as mais importantes para o cinema, a obra recebeu 6 indicações para o Oscar de 2010, nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Edição, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado, recebendo os troféus pelas duas últimas categorias

Para quem ficou interessado em assistir, o filme está disponível em algumas plataformas de stream, como nas dos links abaixo (atualizado em Outubro/2020)

Looke: Link Preciosa Looke

Amazon Prime Video: Link Preciosa Amazon Prime

Semana da Proteção à Criança Lune Station

Se ficou interessado na nossa semana, temos mais dois posts para completá-la: o da Selene, link abaixo, e o da Artemis, que será postado no fim de semana!

Pipoca Lunar: O Menino Que Descobriu o Vento, por Selene

Oi, eu sou a Gabriela, mais conhecida por aqui como Hekate. Nascida e criada em São Paulo, duplamente escorpiana, apaixonada por tudo ligado à cultura pop e, às vezes, não tão pop assim. Comédias românticas, livros do Sidney Sheldon, playlists e músicos undergrounds, kpop e o Corinthians são minhas maiores paixões. Aspirante a chef de cozinha e escritora, amante de chás e de abraços.