Pipoca Lunar

Pipoca Lunar: Rambo e as Consequências da Guerra

Minha missão nessa semana era escolher falar de algo que representasse bem a guerra e suas consequências – e posso falar com certeza que Rambo: Programado Para Matar sempre será o primeiro filme na minha mente sobre esse tema.

Você quer uma boa ação? Esse filme tem. Você quer um bom conteúdo? Esse filme também tem. Você quer sentir seu coração apertar enquanto um herói de guerra do exército grita seus sentimentos de indignação e não se encaixar na sociedade?

Esse filme tem isso sem dó nem piedade.

Quem já lê o blog sabe que eu, Artemis, não choro fácil – principalmente com histórias nos meios de mídia. Se algo me provoca lágrimas, pode ter certeza que é algo bem emocional.

Não esperava isso de Rambo?

Pois é, eu também não.

Então pegue o trem comigo para a pequena cidade de Hope, nos EUA, onde vamos conhecer John Rambo e entender um pouco melhor os horrores que a guerra faz com os seus soldados – não só com as vítimas.

A Guerra do Vietnã e os Boinas Verdes

Como sempre, acho legal nos situarmos no momento histórico para entender melhor o filme! Lançado em 1982, a guerra ainda estava fresca na memória da população, dispensando lembretes de momentos históricos.

Mapa do Vietnam do Norte e Vietnam do Sul na época da guerra (fonte da imagem: maps of world)

Lá na época de 1946 a 1954, ocorreu a Guerra da Indochina. Durante esse período, a França controlava o território do Vietnã, Laos e Camboja. Sendo de maioria comunista, os vietnamitas enfrentaram os franceses – e ganharam a guerra, retomando seu país.

Em 1954, então, o Vietnã garantiu independência – mas, por diferenças ideológicas, o país foi dividido entre Norte e Sul. O Vietnã do Norte era comunista e apoiado pela União Soviética, enquanto o Vietnã do Sul era capitalista e apoiado pelos Estados Unidos.

Você já está com flashbacks de Guerra Fria? Pois isso influenciou na Guerra do Vietnã.

Em 1955, haveria eleições para reunificação do país, mas o Vietnã do Sul recusou-se a participar das mesmas. Sendo assim, o Vietnã do Norte atacou e, em 1959, teve início a guerra que duraria até 1975.

Ok. E os EUA em tudo isso?

Lembra que falei da Guerra Fria? Então, os Estados Unidos temiam o avanço do comunismo, principalmente depois que a China se declarou comunista. Primeiramente, os norte americanos ajudaram com armamentos e treinamento militar ao Vietnã do Sul – mas, após um suposto ataque à uma embarcação dos EUA, o país oficialmente entrou na guerra em 1965.

O Sargento Jeremiah Purdie vai até um soldado ferido após um tiroteio na zona desmilitarizada em 1966. A foto é conhecida como “Reaching Out” (fonte da imagem: Larry Burrows/Time Magazine)

O conflito ficou muito conhecido por cenas desumanas, com torturas e absurdos maus tratos a civis por mãos de soldados, além do uso de armas químicas (como napalm, agente laranja e etc.) que danificaram o solo do país até hoje. Estima-se que 58 mil soldados norte americanos morreram na guerra.

Isso fez com que o povo dos EUA protestasse contra a mesma, forçando o governo a sair da guerra. Com um acordo assinado em 1973, os Estados Unidos deixaram o país – sendo que Saigon, então capital do Vietnã do Sul, foi conquistada em 1975 e, em 1976, houve a unificação pelo governo comunista.

(Fonte: Brasil Escola)

E quem raios são os boinas verdes?

Insígnia das Forças Especiais (fonte da imagem: wikipedia)

Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos, são conhecidos como boinas verdes exatamente por usarem boinas verdes no uniforme. Fundados em 1952, suas principais tarefas são: guerra não convencional (unconventional warfare), defesa interna estrangeira (foreign internal defense), ação direta (direct action), contra insurgência (counter-insurgency), reconhecimento especial (special reconnaissance), contra terrorismo (counter-terrorism), operações de informação (information operations),  contraproliferação de armas de destruição em massa (counterproliferation of WMD) e assistência à força de segurança (security force assistance).

Como era de se esperar, após a descrição acima, os boinas verdes também tiveram atuação durante a guerra do Vietnã.

Rambo: Programado Para Matar

Poster do filme (fonte da imagem: wikipedia)

Em 1982, foi lançado o filme Rambo: Programado Para Matar (em inglês, “First Blood”), dirigido por Ted Kotcheff e estrelado, além de co-escrito, por Sylvester Stallone – tornando-se uma das maiores franquias de ação do cinema atual. É interessante notar, também, que o filme é baseado no livro de nome First Blood, do autor David Morell, lançado em 1972.

A história gira em torno de John Rambo, veterano da Guerra do Vietnã. Antigo membro dos boinas verdes, Rambo também foi prisioneiro de guerra, sendo recompensado com uma Medalha de Honra por seu serviço. 10 anos depois, está em busca de um de seus amigos de sua unidade, mas fica sabendo pela mãe do colega, logo no início do filme, que este morreu por conta da exposição às armas químicas durante a guerra.

Stallone como John Rambo no início do filme (fonte da imagem: pinterest)

Claramente chateado com a notícia, Rambo segue para a pequena cidade de Hope, em Washington, procurando por algo para comer e um lugar para dormir. Porém, por causa da aparência de Rambo e por o julgar um “vagabundo” (drifter), o xerife da cidade – Will Teasle – o expulsa do lugar, dirigindo-o para fora do local.

Porém Rambo retorna e Teasle usa isso como desculpa para prendê-lo. Sem qualquer tipo de reação ou provocação da parte de Rambo, os policiais iniciam uma série de abusos – notando que ele está coberto em cicatrizes, mas, mesmo assim, espancando-o e dando um banho com jato de mangueira de bombeiro. É aí que Rambo tem um flashback das torturas que sofreu como prisioneiro de guerra no Vietnã, resultando em um surto que o faz combater os policiais e fugir da delegacia.

E assim se inicia a caçada que ocorre durante todo o filme, escalando cada vez mais em violência e gravidade da situação, porém por conta das ações dos policiais – enquanto Rambo somente procurava se defender da maneira que sabia.

Tudo foge de controle e o Coronel Trautman, responsável pelo treinamento de Rambo, é chamado para conversar com o boina verde e fazer com que se entregue às autoridades. Rambo, porém, segura-se na frase de que “eles derrubaram o primeiro sangue” (“they drew first blood”) – um termo em inglês para indicar aquele que atacou pela primeira vez, dando ao outro a ação justificada de se defender.

Rambo sendo levado à delegacia, onde os maus tratos começam (fonte da imagem: hd movie room)

O filme é recheado de incríveis cenas de ação que, claro, só ficam melhores com a participação de Stallone (sim, sou fã dele e da maneira como ele repentinamente te pega de surpresa com uma atuação cheia de sentimentos). Porém, o que fez esse filme excepcional para mim e uma adição necessária na minha lista de favoritos, foi literalmente a última cena.

Rambo é, em geral, silencioso e controlado, taciturno; de fato com o olhar de alguém que já viu de tudo nesse mundo. Mas, quando o Coronel o confronta, Rambo atinge o pico e explode em uma montanha russa de emoções que inicia em raiva e termina com um vale de lágrimas.

Eu sou da opinião ferrenha de que ninguém poderia entregar esse texto da maneira como Stallone o fez. É visceral, é repleta de uma fúria feita de fogo e depois embalada em memórias doloridas que fazem um homem do tamanho dele e com todo aquele conhecimento em combate chorar feito uma criança, somente procurando alguém para abraçar.

“Você não simplesmente para isso. Não era minha guerra. Você me pediu, eu não pedi a você” (fonte do GIF: tenor)

Consequências da Guerra e Transtorno de Estresse Pós Traumático

(Aviso que essa parte do post tem spoilers do final do filme – que, caso não tenha assistido, sugiro o fazer antes de ler. Também deixo avisado que vou tratar de estresse pós traumático em situações de guerra, podendo servir de gatilho para algumas pessoas)

O discurso de Rambo no fim do filme é bem conhecido como uma das cenas mais emblemáticas da trama. Ele deixa claro que não escolheu lutar na guerra, que foi pelo chamado de outras pessoas. Lutou ao lado daqueles que considerou amigos.

E, quando retornou, a sociedade não o aceitava mais.

Rambo passou de um herói de guerra para uma escória da sociedade – visto como vilão por ativistas por ter lutado uma guerra que nem era sua, aponta a ironia de ter sido responsável por equipamentos milionários enquanto soldado e não conseguir nem um emprego, mesmo como manobrista, ao retornar para seu país.

Com uma sociedade despreparada para receber seus veteranos de guerra, como esperavam que um homem traumatizado com o estresse constante ao qual foi submetido por tanto tempo se encaixasse novamente em uma vida normal?

No final, Rambo chora abraçado ao Coronel que o treinou (fonte do GIF: secureservercdn)

Mas o maior impacto é quando Rambo começa a falar de um de seus amigos da unidade à qual fazia parte. Por conta de uma bomba escondida em uma caixa de engraxate, o amigo de Rambo explode pelos ares, porém continuando vivo durante um tempo.

É nessa hora que ele começa a chorar e falar como se lembrava de estar com pedaços de outra pessoa por cima do próprio corpo. Permanecendo ao lado do amigo, lembrava-se de como o amigo dizia que somente queria ir para casa. E isso faz Rambo acordar às vezes sem nem saber onde está, passando dias ou até semanas sem falar com ninguém, impossibilitado de apagar aquelas memórias terríveis da própria mente.

Vou deixar abaixo a cena (dublada, não consegui encontrar legendada) para que relembrem esse momento que, para mim, foi tão marcante. Lembrando, se ainda não assistiu Rambo, sugiro que não assista ao vídeo para ter o impacto de ver essa cena pela primeira vez com todo o contexto da construção do enredo que o filme traz!

Cena dublada do “discurso final” de Rambo sobre a guerra

O Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT) ficou conhecido por ser uma doença mental que aflige muitos veteranos de guerra – bem como pessoas comuns que passaram por momentos que desencadearam a condição.

É caracterizado como um transtorno de ansiedade, causando reações intensas, desenvolvido após vivenciar eventos extremamente traumáticos. Esses eventos podem ser, por exemplo, mortes, agressões sexuais, violências graves, ameaças, situações de guerra, acidentes, diagnósticos de doenças graves, entre muitos outros exemplos.

Também é interessante falar que quem não sofreu diretamente a violência, pode sofrer do transtorno. Como, por exemplo, a mãe que fica sabendo do abuso que a filha sofreu.

Claro que é normal sentir abalo por qualquer uma dessas situações. Porém, quando tais sentimentos persistem por meses ou anos, pode ser um quadro de TEPT – sendo os sintomas mais frequentes:

  • Lembranças recorrentes: quando a pessoa fica revivendo o trauma, através de memórias, pesadelos ou flashbacks, como acontece com Rambo durante o filme;
  • Ataques de ansiedade: os flashbacks podem desencadear reações físicas, como sudorese, tremores, respiração falhada, vertigem e náusea;
  • Comportamentos de esquiva: basicamente, o ato de evitar tudo aquilo que a lembra do que causou o transtorno, como pessoas, situações, locais ou até não se lembrar/não falar sobre o acontecimento;
  • Efeitos emocionais negativos: como desenvolvimento de depressão, problemas de confiança, sentimentos de culpa e/ou vergonha, e etc.;
  • Estado de alerta: constante estado de alerta, dificuldades para dormir e/ou se concentrar, fácil de assustar e difícil de controlar emoções, como, por exemplo, explosões de raiva.
fonte da imagem: nami.org

Nesses casos é de extrema importância que a pessoa afetada procure terapia para iniciar um tratamento. No caso de Rambo e de muitos veteranos de guerra – principalmente em épocas mais antigas como nos anos 70 e 80, em que doenças mentais eram mais tabus que hoje em dia – o Transtorno de Estresse Pós Traumático ficou sem tratamento, gerando desgastes mentais e emocionais, além de fazer com que cada vez mais a pessoa se retire da sociedade.

Se você se identifica com esse tipo de transtorno e passou por alguma situação que desencadeou tais sintomas por um longo período de tempo, procure ajuda. Lembre-se: você não precisa passar por tudo isso sozinho. Há pessoas que irão te aceitar e irão te ajudar a escalar a montanha para a melhora. Você não está sozinho e isso importa. Você importa.

Agora, se você conhece alguém diagnosticado com TEPT, ofereça ajuda. Às vezes, somente alguém para desabafar e chorar – como Rambo fez com o Coronel ao final do filme – é suficiente. Lembre-se que a pessoa está passando por um período de muita dor e precisa de compreensão e algo em que se firmar. Procure entender, procure aprender e ajudar a pessoa a escalar a montanha. Ofereça uma mão amiga quando ela mais precisa.

Como Rambo diz, você cuida de mim e eu cuido de você.

Que consigamos construir um mundo no qual as pessoas que precisam de apoio sejam apoiadas – e em que um soldado que retornou da guerra nunca mais precise fugir e chorar ao assistir a um show de fogos de artifício por se lembrar de bombas e metralhadoras.

Cartazes usados na época das celebrações de 4 de Julho nos EUA, dizendo: “Veterano de combate vive aqui. Por favor, seja cortês com fogos de artifício” (fonte da imagem: wcnc)

Conhecida na Lua como Artemis, meu nome aqui na Terra é Kadine. Considero que sou de Serra Negra – sou ariana com ascendente em escorpião. Interessada em tudo que é artístico, tenho um fraco para pesquisar coisas obscuras! Desbravadora de museus, compro mais livros do que consigo ler, interessadíssima em outros idiomas e culturas, colecionadora de chás e canecas, escritora nas horas vagas e gamer noturna para passar raiva com invader em Dark Souls (e relaxar com Devil May Cry ou Resident Evil).