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Pipoca Lunar: What’s Happening Miss Simone – A Voz dos Palcos, dos Direitos Civis e da Força!

Esse é o início da semana da Consciência Negra aqui do Lune Station, e, antes de darmos o start, queremos deixar claro que nós, enquanto três mulheres de peles brancas/amarelas, não queremos em hipótese alguma tomar um local de fala que não é o nosso. O intuito dessa semana é usar nosso espaço para dar palco e voz, para quem realmente está a frente de toda essa luta contra o racismo e à favor da igualdade racial.

Essa semana é para mostrar nosso apoio, solidariedade, aprendermos mais sobre os movimentos e, porque não, indicar algumas obras do entretenimento para que outras pessoas, entendam, saibam seu lugar e ajudem da melhor forma possível!

Hoje, eu, Hekate, trago até as terras lunares, um documentário – que eu aprendi muito e chorei muito enquanto assistia também! – sobre uma mulher que soube como usar sua voz em prol dos movimentos civis, e, também, para levar música boa àqueles que sabiam como apreciar. Uma mulher que, por muito tempo, não soube quem era ou qual era seu papel na sociedade enquanto mulher, preta, pobre e sonhadora.

Cartaz da Netflix para divulgação do documentário (fonte da imagem: netflix)

Mas que, quando descobriu sua força e o que queria significar na sociedade, virou um furacão: entrou de cabeça, corpo e alma para mostrar, causar curiosidade aos seus, e fazer, assim, com que eles soubessem que a vida deles valia tanto quanto qualquer outra.

Nina Simone, uma voz lendária da música popular, apelidada de Alta Sacerdotisa do Soul, tinha o sonho de se tornar a primeira pianista negra a tocar no Carnegie Hall, conquistando diversos prêmios e admiradores ao longo de sua carreira. Chegou a lugares e escreveu canções que nenhum outro artista afro descendente conseguiu ou teve coragem para a época em que ela fez história.

Embarque comigo nesse trem até Tryon, Carolina do Norte, e vamos juntos conhecer mais sobre essa grande artista e a sua arte.

Quem Foi Eunice Kathleen Waymon?

Antes de entrarmos de cabeça no documentário ‘What Happened, Miss Simone?’ acho importante conhecermos um pouco sobre quem foi Nina Simone, que tipo de arte ela fazia e como chegou aonde chegou.

Nina Simone (fonte da imagem: pinterest)

Nascida em 21 de fevereiro de 1933, com o nome de Eunice Kathleen Waymon, filha de pastora, ela começou a tocar piano aos três, quatro anos de idade na igreja em que sua mãe ministrava os cultos. Ficou apaixonada pelo piano e instituiu como meta de vida ser pianista clássica, e não só isso: a primeira pianista clássica negra dos estados unidos.

Ainda na igreja, aos sete anos de idade, enquanto se apresentava com o coro da igreja em um recital, conheceu duas mulheres brancas: uma era a patroa de sua mãe e outra uma professora de música, sendo que as duas garantiram que ela tivesse aulas e uma instrução musical com o instrumento.

Nina Simone, criança em Tryon (fonte da imagem: veja meu mundo)

A professora era muito rígida, porém muito simpática e, com ela, Eunice aprendeu a tocar e gostar ainda mais de música clássica. Tocava coisas como Bach, Beethoven, Chopin, Debussy, Brahms e assim por diante. Estudou com a ajuda dessas duas mulheres por cinco anos e, com a ajuda delas também, angariou algum dinheiro com o fundo – Eunice Waymon – para continuar os estudos.

” ― Eu não lidava com a raça, coincidentemente, eu não tinha consciência  mesmo, mas isso mudou anos depois.”

Nota sobre os recitais que Nina fazia, ainda enquanto estudava musica clássica para angariar dinheiro (fonte da imagem: ids.si.edu)

Enquanto atravessava a linha do trem – que, na região em que cresceu, bem como em muitos outros lugares, havia algum tipo de divisão e separava os brancos dos negros – ela não conseguia encontrar quem era na sociedade: não se encaixava do outro lado da linha e, do seu lado, quando não estava isolada estudando por mais de oito horas, estava tocando para entreter outras pessoas e crianças, ao invés de viver uma infância como a de uma criança normal.

Depois que terminou os estudos do colégio, com ajuda do fundo que arrecadou, conseguiu estudar por um ano e meio na Juilliard (escola de Ensino superior de Música, Dança e Dramaturgia localizada em Nova York). Mas, quando o dinheiro acabou, a candidatura que fez para o instituto Curtis na Filadélfia foi negada – ao que ela percebeu ter sido por conta da cor da sua pele.

Teve que arrumar um emprego e, depois que os pais vieram morar com ela na Filadélfia, começou a tocar em bares – que mais pareciam espeluncas. Foi aí, aos 20 anos de idade, que adotou o nome artístico Nina Simone e o fez por sua mãe – que certamente não entenderia ou aceitaria que ela estivesse ganhando dinheiro daquela forma.

Nina jovem (fonte da imagem: telegraph uk)

Até então, ela era somente a pianista – mas, em um de seus serviços, o patrão disse que ela teria de cantar também. Ela nunca o tinha feito, não tinha estudado canto, mas cantou – e eu e o mundo da música agradecemos por isso.

Começou a fazer música depois disso e a participar de festivais de Jazz, nos quais mais e mais pessoas conheciam sua arte e a sua voz marcante e hipnotizante. A início neste mundo, quando estava entrando para o entretenimento, às vezes não se sentia confortável, porque não sabia certamente se era aquilo que ela queria para a vida – ficava presa ainda entre ser uma pianista clássica ou fazer música popular.

Nina cantando Little Liza no festival de jazz de Newport, 1960. (Imagem retirada do Youtube)

Algum tempo depois de começar nos festivais, Nina já era uma estrela em ascensão no mundo da música: seus ritmos como Jazz, Blues e Música Clássica, em conjunto com sua voz magnífica, só a levou onde sempre deveria estar, pois, o talento dela era – e ainda é, porque a arte nunca morre – palpável e merecia ser plenamente conhecido.

O Casamento Com Andrew Stroud…

Nina e Andrew – que na época era detetive de polícia – se conheceram em 1960 em um dos shows dela. Começaram a sair e, em 1961, se casaram. Assim que tiveram sua filha, Lisa Simone, em 1962, o casamento parecia perfeito e a família também. Ele deixou a polícia para se tornar empresário dela, compraram uma casa grande no campo, com um quintal lindo e arborizado, carros na garagem e tudo aquilo que enchia os olhos das pessoas.

Andrew, Nina e a Pequena Lisa, recém nascida (fonte da imagem: pinterest)

Mas as boas conquistas e momentos felizes, mascaravam um relacionamento conturbado. Como empresário e cuidador da carreira de Nina, Andrew foi excepcional: mantinha-a regrada e focada nos objetivos e vendas. Porém, na vida pessoal, ele era um homem extremamente ciumento, possessivo, agressivo e abusava constantemente dela – tanto física quanto psicologicamente.

Em um depoimento que ela dá no documentárioem uma entrevista – relata que em uma ocasião, eles estavam em uma boate e um fã entregou um bilhete a ela, que guardou o papel no bolso. Quando ele viu a cena, segurou-a forte pelo braço e a levou embora do local. Ao chegarem para na calçada, ele começou a bater nela e foi espancando até que chegassem em casa. Ao chegarem lá, ele continuou agredindo física e verbalmente, amarrou-a e a espancou, fazendo sexo sem o seu consentimento.

Chorei tanto nessa hora, porque tantas mulheres sofrem isso dentro de suas casas, de homens que amam e confiam, e que não conseguem enxergar que esse tipo de ato além de nojento, nunca será amor.

Ela relatou também que não conseguia se separar dele, na esperança que ele nunca mais fizesse algo que a machucaria – ela o amava e pensava que precisava dele; que sem ele não seria a grande artista era.

Nina e Andrew em um evento social (fonte da imagem: pinterest)

“Você tem que aprender a levantar-se da mesa quando o amor não estiver mais sendo servido.”

O divórcio veio no ano de 1970quando, depois que ela passou a usar sua voz e o fato de ser uma artista assistida por milhares de pessoas em prol dos direitos civis, o que fez com que sua música ficasse menos rentável, ele passou a ter o desejo que ela abandonasse tudo aquilo e vivesse para o matrimônio.

Depois que ela se envolveu com pessoas influentes e importantes que eram frente dos movimentos igualitários dos anos 60, percebeu e encontrou seu lugar e dignidade enquanto pessoa negra – e, talvez, essa força e determinação tenha sido o que abriu os olhos dela quanto àquele relacionamento.

De Grande Musicista à Grande Voz Dos Direitos Civis

Para falarmos da importância da entrada de Nina Simone para o movimento dos direitos civis, precisamos falar primeiro o que foi esse movimento tão importante para a comunidade afro-descendente dos EUA.

Logo após a abolição da escravatura nos Estados Unidos, no fim da guerra civil no ano de 1865, os negros, que agora eram pessoas livres, não tinham acesso aos mesmos direitos civis que os brancos.

As leis de Jim Crow – que impunham a segregação racial, a doutrina “separados, mas iguais” e a atuação da Ku Klux Klan – fizeram com que, por cem anos após a abolição da escravatura, os negros continuassem tendo seus direitos como cidadãos minimizados ou até mesmo inexistentes em muitos âmbitos sociais e de igualdade.

Martin Luther King, Coretta Scott King e outros líderes dos direitos civis na marcha em Selma, 1965 (fonte da imagem: veja abril)

O movimento dos direitos civis foi a campanha por direitos civis e igualdade para a comunidade afro-americana nos Estados Unidos, com inicio na década de 50.

Manifestações, protestos, resistência, boicotes, passeatas e lutas diárias, comandadas por grandes vozes como Rosa Parks e Martin Luther King, fizeram com que lentamente os negros tivessem o direito de viver; que não tivessem violados seus direitos de ir e vir, de usar o mesmo espaço que pessoas de outras raças – como escolas, transporte públicos e restaurantes e etc. 

A Luta, que foi extremamente violenta por quem não aceitava o fim da segregação, obteve direitos importantes para a comunidade – e, até hoje, é voz para o combate ao racismo e a discriminação racial em todo o mundo.

Rosa Parks, sendo detida, após recusar a se levantar no assento do ônibus quando o mesmo lotou, para que um cidadão branco se sentasse (era uma das leis de segregação da época) em 1955 (fonte da imagem: arc-anglerfish)

O estopim para a entrada de Nina nos movimentos dos direitos civis e igualdade racial veio logo após a explosão de uma escola dominical em Birmingham, Alabama, que matou quatro estudantes e feriu mais de 20 outras pessoas negras. A explosão, que aconteceu no ano de 1963, foi causada por grupos extremistas de supremacia branca.

Primeiro, ela se sentiu deprimida e triste, e, depois que a tristeza passou, ela sentiu raiva, sentiu a injustiça do povo negro e o fato de estar sendo morto, maltratado, tratado como nada simplesmente pela cor de sua pele. Depois desse episódio com as crianças, ela se trancou e escreveu uma das musicas que foi um hino e serviu como palavras de força e acolhimento para toda a comunidade.

Mississippi Goddam (Mississippi, put* que par*u, em tradução literal) foi uma canção para a época que falava sobre como todos os artistas e pessoas negras se sentiam. Ela, como mulher em meio à indústria do entretenimento, estava à frente de sua época – mesmo quando foi boicotada pelas rádios do sul dos EUA, continuou usando sua música, sua voz e seu espaço para a militância política na luta pelas liberdade democráticas dos negros no país. 

Apresentação de Mississippi Goddam, em Antibes, 1965

Em 1965, tocou com sua banda na marcha de Selma a Montgomery, Alabama. E, sentados na frente do palco, diante do público, estavam Martin Luther King, Ralph Bunche, da ONU, e vários outros líderes que lutavam pela dignidade social da comunidade negra.

“Não me importo se ficar sem comer, ou dormir, contanto que faça algo que valha a pena”

Não só contribuiu com sua voz, em seus concertos, como se juntava aos manifestantes, passeatas e em todo tipo de ação em prol ao que acreditava ser o certo – e era realmente. Encontrou ali o pilar de sua existência: não foi o piano clássico, nem a música clássica ou popular, mas sim a música pelos direitos civis – ali sim, ela encontrou o verdadeiro motivo para que continuasse tanto tempo no show business.

Conheceu Martin Luther King, Malcom X, Andrew Young e artistas em um geral, que se sentiram obrigados a assumir a mesma posição que a dela. Todos os grandes nomes da América negra eram amigos íntimos de Nina de sua família. Lorraine Hasberry era madrinha de Lisa e ela tinha uma relação muito próxima com a família de Malcom X.

Nina Simone dá as mãos e canta com Lorraine Hansberry e outros ativistas em uma reunião pré-beneficente para o Comitê de Coordenação do Estudante Não-Violento (SNCC) em junho de 1963 na casa do ativista / cantor / ator Theodore Bikel (fonte da imagem: kpbs)

Passou a querer despertar nos jovens negros a curiosidade sobre suas identidades, sobre suas origens, para que descobrissem algo mais sobre isso, para que tivessem orgulho e dignidade do povo africano. E aquilo era algo que a deixava feliz em fazer, porque, em sua juventude, aquele tipo de ação foi o que faltou para que ela crescesse com mais consciência e dignidade de quem era e de onde veio.

Sabia que usar sua voz naquele momento, não somente para o entretenimento, era crucial e não somente para a comunidade negra, como para ela mesma – para que ela, acima de tudo – sentisse orgulho de quem era, para onde estava indo e quais eram suas descendências.

O Que Aconteceu Com a Senhora Simone?

Trailer do documentário

O Documentário ‘What Happened, Miss Simone?’ de 2015, que está disponível no catálogo da Netflix, mostra imagens raras, exclusivas, depoimentos de pessoas próximas a Nina – como seu amigo e guitarrista Al Schackman, sua filha Lisa Simone, seu ex-marido Andrew Stroud, entre outras pessoas que conheceram e conviveram com essa artista incrível. Gravações de apresentações e entrevistas, além de partes dos diários, também fazem parte dessa produção, que conta em detalhes a vida conturbada desde sua infância até sua morte em 2003.

Com direção de Liz Garbus, o documentário, que conta com uma trilha sonora INCRÍVEL (algumas das músicas tocadas, são acompanhadas por gravação de performances, o que deixa tudo muito mais fascinante), teve muitas indicações aos grandes e mais prestigiados prêmios para as produções cinematográficas – como ao Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem, MTV Movie & TV Award de Melhor documentário, Emmy do Primetime de Melhor Documentário/Especial, Peabody Award de Documentário e algumas outras premiações e categorias.

Nina Simone no início dos anos 90. Foto de Sherry Rayn Barnett

Uma bela produção, que mostra como a fama foi algo bom e, ao mesmo tempo, massacrante para essa mulher – que foi força e voz, não só de uma geração, como de muitas pessoas até hoje!

Assista ao Documentário e Escute Suas Músicas

Escolhi falar sobre Nina Simone nesse meu post na semana da Consciência Negra, não somente por ela ter sido parte importante no movimento dos direitos civis, mas também porque sou perdidamente apaixonada pela música que ela cantou e criou.

Jazz é um dos meus estilos musicais favoritos – e não falamos de Jazz, Blues e Soul sem falar sobre a Nina, uma voz profunda que invade nossos sentidos, uma combinação de estilos que nos instiga a querer ouvir tudo e qualquer coisa que essa artista incrível de dispôs a cantar e produzir.

Então, como dica para o post de hoje, escutem as maravilhosas músicas dela nas plataformas digitais e de stream; e assistam a esse documentário magnífico para que conheçam mais sobre essa mulher, essa ativista, essa artista.

Documentário na Netflix: What Happened, Miss Simone?

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Oi, eu sou a Gabriela, mais conhecida por aqui como Hekate. Nascida e criada em São Paulo, duplamente escorpiana, apaixonada por tudo ligado à cultura pop e, às vezes, não tão pop assim. Comédias românticas, livros do Sidney Sheldon, playlists e músicos undergrounds, kpop e o Corinthians são minhas maiores paixões. Aspirante a chef de cozinha e escritora, amante de chás e de abraços.